Resposta rápida

Se vários parentes seus tiveram câncer, principalmente cedo, vale conhecer a síndrome de Li-Fraumeni. Ela é uma doença genética hereditária causada por alterações no gene TP53, que funciona como um "freio" contra o câncer. Quem nasce com a alteração tem risco muito elevado de desenvolver vários tipos de câncer ao longo da vida. O diagnóstico pode ser feito por teste genético, mesmo antes de qualquer tumor, e permite iniciar exames de vigilância para detectar a doença cedo.

Caso clínico ilustrativo

Mariana, 29 anos, descobriu um câncer de mama. Sua mãe teve um sarcoma (câncer de músculo ou osso) aos 38 anos, e um tio materno teve tumor no cérebro ainda jovem. Ao ouvir a história da família, a oncologista suspeitou de uma causa hereditária e encaminhou Mariana para aconselhamento genético. O teste mostrou uma alteração no gene TP53. Antes de iniciar o tratamento, a equipe ajustou o plano, evitando radioterapia quando possível. Os irmãos de Mariana foram orientados a fazer o teste e, quem tem a alteração, passou a ser acompanhado com exames periódicos.

Os dados e o caso clínico citados neste artigo são fictícios e têm fim meramente ilustrativo, servindo para facilitar a compreensão do tema abordado.

O que é a síndrome de Li-Fraumeni?

O gene TP53 produz a proteína p53, conhecida como "guardiã do genoma". Quando uma célula sofre danos no DNA, a p53 manda a célula se reparar ou morrer, impedindo que ela vire um tumor. Na síndrome de Li-Fraumeni, a pessoa já nasce com uma cópia alterada desse gene em todas as células do corpo. Por isso, o "freio" contra o câncer funciona pior.

Segundo uma revisão publicada na Clinical Cancer Research, a perda da função da p53 deixa a pessoa muito suscetível a uma ampla variedade de cânceres sólidos e do sangue.

Como ela é herdada?

  • A herança é autossômica dominante: quem tem a alteração tem 50% de chance de passá-la a cada filho.
  • Pode atingir homens e mulheres.
  • Nem sempre há histórico familiar evidente. Diretrizes europeias mostram que a alteração é encontrada em crianças com certos tumores e em mulheres com câncer de mama precoce, mesmo sem familiares afetados.

Quais cânceres a síndrome pode causar?

Os mais frequentes, chamados de "núcleo" da síndrome, são:

  • Sarcomas (câncer de ossos e de partes moles, como músculos);
  • Câncer de mama, especialmente antes da menopausa;
  • Tumores do sistema nervoso central (cérebro);
  • Carcinoma do córtex da adrenal (glândula acima do rim);
  • Leucemias.

Uma revisão alemã destaca que tumores podem surgir praticamente em qualquer parte do corpo. A pessoa também pode ter mais de um câncer ao longo da vida, os chamados tumores primários múltiplos.

Qual é o risco de câncer em quem tem a síndrome?

  • Estudos descrevem um risco de câncer ao longo da vida próximo de 100% em portadores da forma clássica da síndrome.
  • No Brasil existe uma variante muito frequente no sul e sudeste do país, a R337H, considerada uma mutação fundadora. Um estudo brasileiro publicado em 2025 na The Lancet Regional Health Americas, com 708 adultos, mostrou que portadores da R337H tiveram risco acumulado de câncer menor que o de portadores de outras variantes (54% contra 78%). Entre os portadores da R337H, as mulheres tiveram risco bem maior que os homens (65% contra 30%).
  • A chance de a alteração realmente causar câncer varia conforme o tipo de variante e outros fatores. Isso significa que o risco é individual e deve ser interpretado por um especialista.

Quais são os fatores de risco e sinais de alerta na família?

A síndrome é genética, então o principal fator de risco é a história familiar. Fique atento se, na sua família, houver:

  • Câncer de mama antes dos 31 anos;
  • Sarcoma, câncer de adrenal, tumor de plexo coroide (um tipo raro de tumor cerebral) ou outros tumores raros na infância;
  • Um tumor típico da síndrome (mama, sarcoma, cérebro, adrenal) diagnosticado antes dos 46 anos, com parente próximo também afetado em idade jovem;
  • Uma mesma pessoa com mais de um câncer, sendo o primeiro antes dos 46 anos;
  • Vários casos de câncer em parentes de primeiro e segundo grau.

Esses sinais fazem parte dos chamados critérios de Chompret, usados pelos médicos para decidir quem deve fazer o teste genético. Um estudo do sul do Brasil mostrou que mais de dois terços dos portadores identificados por esses critérios tinham a variante R337H.

Como é feito o diagnóstico?

O diagnóstico é confirmado por teste genético do gene TP53, geralmente feito em amostra de sangue ou saliva. O caminho costuma ser:

  1. Aconselhamento genético: o especialista avalia a história da família e indica se o teste é adequado.
  2. Coleta e análise do gene TP53.
  3. Interpretação do resultado: nem toda alteração encontrada é claramente patogênica. Algumas ficam como "variantes de significado incerto". Regras específicas para o TP53 reduziram esse tipo de resultado de 28% para 12%.
  4. Teste em cascata: quando a alteração é identificada na família, parentes podem fazer o teste direcionado.

Só se descobre depois de ter câncer?

Não. O diagnóstico pode ser feito antes de qualquer tumor, por teste genético em pessoas com histórico familiar sugestivo ou em parentes de alguém que já tem a variante confirmada. Isso permite iniciar o acompanhamento mais cedo, e esse é o maior benefício do diagnóstico antecipado.

Quem já tem câncer também se beneficia. Diretrizes europeias recomendam fazer o teste do TP53 antes de iniciar o tratamento, porque radioterapia e alguns quimioterápicos podem favorecer novos tumores em portadores.

Existe tratamento? O que muda com o diagnóstico precoce?

Ainda não existe tratamento que corrija a alteração genética. A revisão alemã destaca que o foco para melhorar o prognóstico é a detecção precoce do câncer. Um consenso internacional recomenda que todo portador seja convidado a fazer vigilância assim que o diagnóstico é confirmado.

O que é o protocolo de Toronto?

É o padrão atual de acompanhamento ao longo da vida, e a atualização de 2025 sugere ajustes conforme a idade. Em linhas gerais, inclui:

  • Crianças (quando a variante está ligada a tumores na infância): exame clínico e ultrassom do abdômen a cada 6 meses, e ressonância magnética de corpo inteiro e do cérebro uma vez por ano, desde o primeiro ano de vida.
  • Adultos: exame clínico anual, ressonância de corpo inteiro anual, ressonância das mamas em mulheres dos 20 aos 65 anos e ressonância do cérebro até os 50 anos.

A ressonância é preferida porque não usa radiação. Tomografias e raios X devem ser evitados sempre que possível, já que a radiação pode aumentar o risco de novos tumores.

Vale a pena o acompanhamento?

Sim. Uma análise econômica brasileira, publicada em 2022, concluiu que a vigilância pelo protocolo de Toronto traz benefício com custo aceitável para portadores da R337H. Os autores alertam, porém, que boa parte da população que depende do sistema público ainda não tem acesso a esse acompanhamento.

O que vem por aí?

Pesquisadores canadenses testaram a biópsia líquida (análise de DNA tumoral no sangue) em 89 pessoas com a síndrome. O exame identificou sinais de câncer antes do diagnóstico convencional. Ainda é uma técnica em validação e não substitui a vigilância atual.

Perguntas frequentes

Toda pessoa com câncer na família tem Li-Fraumeni?

Não. A síndrome é rara e responsável por uma pequena parte dos casos de câncer. O que levanta suspeita é o padrão: câncer em idade jovem, tumores raros, vários tumores na mesma pessoa ou muitos casos na mesma família.

Quem tem a alteração no TP53 vai ter câncer com certeza?

Não necessariamente. O risco é alto, mas varia conforme a variante, o sexo e outros fatores. Alguns portadores ficam a vida inteira sem câncer, especialmente com certas variantes de menor penetrância.

Toda alteração do TP53 no sangue significa Li-Fraumeni?

Não. Um grande estudo de 2026 com dados do UK Biobank mostrou que muitas alterações do TP53 vistas no sangue de adultos são adquiridas ao longo da vida, e não hereditárias. Por isso, o resultado deve ser sempre interpretado por um especialista em genética.

Meus filhos podem herdar a síndrome?

Cada filho tem 50% de chance de herdar a alteração. O aconselhamento genético ajuda a decidir quando e como testar crianças.

Como diminuir o risco?

Não há como eliminar o risco, mas é possível reduzi-lo com vigilância regular, evitando exposição desnecessária à radiação e informando aos médicos sobre o diagnóstico antes de qualquer tratamento oncológico.

Conclusão

A síndrome de Li-Fraumeni é rara, mas conhecer a história da sua família é o primeiro passo para identificá-la. O diagnóstico não depende de já ter tido câncer: o teste genético permite descobrir o risco antes e iniciar uma vigilância que pode detectar tumores em fases mais tratáveis. Informação é uma forma de cuidar de quem você ama.

Seus próximos passos:

  • Converse com seus familiares e anote quem teve câncer, qual tipo e com que idade.
  • Se você reconhece algum sinal de alerta, procure um médico ou um serviço de aconselhamento genético.

Este conteúdo tem finalidade educativa e não substitui a avaliação, o diagnóstico ou a orientação de um médico. Cada caso deve ser analisado individualmente por um profissional de saúde.

Fontes

  • Kratz CP et al. Cancer Screening Recommendations for Individuals with Li-Fraumeni Syndrome. Clin Cancer Res, 2017. DOI
  • Achatz MI et al. Update on Cancer Screening Recommendations for Individuals with Li-Fraumeni Syndrome. Clin Cancer Res, 2025. DOI
  • Frebourg T et al. Guidelines for the Li-Fraumeni and heritable TP53-related cancer syndromes. Eur J Hum Genet, 2020. DOI
  • Keymling M et al. Li-Fraumeni syndrome. Radiologie (Heidelb), 2022. DOI
  • Wong D et al. Early Cancer Detection in Li-Fraumeni Syndrome with Cell-Free DNA. Cancer Discov, 2024. DOI
  • Frankenthal IA et al. Cancer surveillance for patients with Li-Fraumeni Syndrome in Brazil: a cost-effectiveness analysis. Lancet Reg Health Am, 2022. DOI
  • Personalized screening strategies for TP53 R337H carriers. Lancet Reg Health Am, 2025. DOI
  • Characterization of patients fulfilling Chompret criteria for Li-Fraumeni syndrome in Southern Brazil. PLoS One, 2021. DOI
  • Fortuno C et al. Specifications of the ACMG/AMP variant interpretation guidelines for germline TP53 variants. Hum Mutat, 2020. DOI
  • MacGregor HAJ et al. Shared inheritance reveals landscape of somatic and germline cancer risk in TP53. Am J Hum Genet, 2026. DOI

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