Dados epidemiológicos do Painel Mpox do Ministério da Saúde, atualizados em 06/11/2026.
Resposta rápida
Não, a mpox não é transmitida por picada de inseto. Ela é causada por um vírus que passa principalmente pelo contato direto com as lesões de pele de uma pessoa infectada, com secreções do corpo e com objetos contaminados, como toalhas e lençóis. Na maioria das pessoas a doença é leve a moderada e melhora sozinha em 2 a 4 semanas. Em alguns grupos, como quem vive com HIV sem tratamento ou com defesas muito baixas, ela pode ser grave. A vacina ajuda a evitar a infecção e a reduzir o risco de formas graves.
Caso clínico ilustrativo
Marcos, 34 anos, procurou atendimento com febre, dor de cabeça, dores no corpo e inchaço nas "ínguas" do pescoço. Dois dias depois surgiram manchas vermelhas no rosto e nas mãos. As manchas viraram bolhas e depois crostas. Ele tinha ficado em contato próximo com uma pessoa que apresentava lesões na pele, e achava que "algum bichinho" o havia picado. Após avaliação médica e exame laboratorial, foi confirmado o diagnóstico de mpox. Como é comum nesses casos, o médico também solicitou testes para HIV e sífilis, que vieram negativos. Marcos ficou em isolamento, cuidou das lesões e se recuperou em cerca de três semanas.
Os dados e o caso clínico citados neste artigo são fictícios e têm fim meramente ilustrativo, servindo para facilitar a compreensão do tema abordado.
O que é a mpox
A mpox, antes chamada de "varíola dos macacos", é uma doença infecciosa causada pelo vírus mpox, do gênero Orthopoxvirus, o mesmo da varíola humana, que já foi erradicada. O nome antigo vem de 1958, quando o vírus foi identificado em macacos de laboratório na Dinamarca. Em 2022, a Organização Mundial da Saúde adotou o nome "mpox" para evitar estigma e confusão.
Os animais que mantêm o vírus na natureza são principalmente pequenos mamíferos, como roedores, em regiões da África. Por isso a mpox é chamada de zoonose, isto é, uma doença que pode passar de animais para pessoas. Hoje, porém, a maior parte dos casos fora da África acontece de pessoa para pessoa.
Mpox no Brasil em 2026: o que dizem os dados
Segundo o Painel Mpox do Ministério da Saúde, atualizado em 06/11/2026, o Brasil registrou em 2026:
- 633 casos confirmados
- 37 casos prováveis
- 239 casos suspeitos
- 1 óbito
A faixa etária mais atingida é a de 29 a 49 anos, e os casos se concentram principalmente no Rio de Janeiro e em São Paulo.
O número total é bem menor do que o de 2022, quando o país passou de 10 mil casos. Mesmo assim, há sinal de alerta em alguns locais: o Estado do Rio de Janeiro confirmou 269 casos entre janeiro e 3 de novembro de 2026, mais que o dobro dos 119 casos registrados em todo o ano de 2025. Por isso o Ministério da Saúde autorizou a compra de até 20 mil doses da vacina, para reforçar o estoque do SUS com caráter preventivo.
Como a mpox é transmitida
Por inseto?
Não. Mosquitos, pernilongos, carrapatos e outros insetos não transmitem a mpox. Essa é uma confusão comum, porque muitas doenças virais conhecidas, como dengue e febre amarela, dependem de mosquitos.
Quais são as formas reais de transmissão
- Contato direto com as lesões de pele ou de mucosas (boca, genitais) de uma pessoa infectada. As crostas também têm vírus.
- Secreções do corpo, como saliva e secreções respiratórias, em contato próximo e prolongado.
- Objetos contaminados, como roupas, toalhas, lençóis e utensílios usados por quem está doente.
- Contato sexual, que é uma forma de contato pele a pele muito próximo. Mas qualquer pessoa em contato físico próximo com alguém com sintomas pode se infectar.
- Da gestante para o bebê, pela placenta, ou depois do nascimento pelo contato pele a pele.
- De animais infectados para humanos, por mordidas, arranhões, manipulação ou consumo de carne mal cozida, principalmente em regiões onde o vírus circula em animais silvestres.
A pessoa pode transmitir a doença a partir do início dos sintomas, até que todas as crostas caiam e uma nova camada de pele se forme.
Como é a doença na prática
Sintomas
Os sintomas costumam aparecer de 3 a 21 dias depois do contato com o vírus. Os mais comuns são:
- Febre, calafrios e fraqueza
- Dor de cabeça e dores musculares
- Aumento dos gânglios (as "ínguas")
- Erupção na pele, que evolui em etapas: mancha, elevação, bolha, crosta
As lesões aparecem com frequência no rosto, nas mãos, nos pés, na boca e na região genital, e os sintomas costumam durar de duas a quatro semanas.
Quando procurar ajuda
Procure um serviço de saúde se surgirem lesões novas na pele sem explicação, principalmente se houve contato com alguém com suspeita de mpox. Não trate lesões por conta própria e evite contato próximo com outras pessoas até a avaliação médica.
Consequências e complicações
A maioria das pessoas se recupera sem sequelas graves. Mesmo assim, a mpox pode deixar consequências, principalmente em quem tem defesas baixas.
Complicações possíveis
- Infecção bacteriana secundária nas lesões de pele
- Pneumonia
- Inflamação do coração (miocardite)
- Inflamação do cérebro (encefalite)
- Problemas nos olhos, que podem afetar a visão
- Cicatrizes permanentes na pele
- Dor intensa em lesões na boca, na região genital e no ânus
Quem tem mais risco de formas graves
- Pessoas que vivem com HIV sem tratamento ou com defesas muito baixas
- Pessoas com outras condições que reduzem a imunidade
- Gestantes, pelo risco para o bebê
- Crianças pequenas
Mpox, IST, HIV e hospitalização: o que a ciência mostra
Mpox é uma IST?
A mpox não é classificada apenas como infecção sexualmente transmissível. Ela passa por qualquer contato próximo com as lesões, e crianças, mulheres e pessoas sem vida sexual ativa também podem se infectar. Mas o contato sexual é uma das formas importantes de transmissão no cenário atual, porque envolve contato pele a pele prolongado. Por isso a mpox costuma aparecer junto com outras IST.
Por que se fala tanto em coinfecção
Estudos mostram que quem tem mpox tem mais chance de ter, ao mesmo tempo, outras infecções sexualmente transmissíveis:
- Em uma grande base de dados dos Estados Unidos, pessoas com mpox tiveram taxa de coinfecção com HIV de 22,9%, contra 6,0% em quem não tinha mpox, e também taxas maiores de clamídia, gonorreia e exposição à sífilis.
- Em um estudo brasileiro publicado no Brazilian Journal of Infectious Diseases (março de 2026), o HIV foi identificado em 49,5% dos casos confirmados, e as conclusões apontam alta frequência de coinfecção com IST, principalmente sífilis e HIV.
Por isso, quando alguém recebe o diagnóstico de mpox, é comum o médico solicitar também testes de HIV, sífilis e outras IST. Tratar tudo ao mesmo tempo faz diferença.
Mpox e HIV: por que o cuidado é maior
O HIV, quando não está controlado, enfraquece as defesas do corpo, e é nesse cenário que a mpox pode ficar mais grave. Uma revisão sistemática com meta-análise de 2026, publicada na Emerging Microbes & Infections, reuniu 29 estudos com 15.522 pessoas com mpox. A coinfecção com HIV esteve associada a mais hospitalizações (risco relativo de 1,50) e maior mortalidade, com sinais de que a supressão inadequada do vírus do HIV pode ser um fator importante para desfechos piores.
O ponto central: quem vive com HIV e está em tratamento regular, com o vírus controlado, tem muito menos risco. O perigo maior está em quem tem HIV sem tratamento ou com defesas muito baixas. Isso também explica por que a vacina no SUS é prioritária para pessoas com HIV e CD4 baixo.
Quando a mpox leva à internação
A maioria dos casos é leve. Um estudo da vigilância do município do Rio de Janeiro (Epidemiologia e Serviços de Saúde, 2024) concluiu que os casos se concentraram principalmente em homens de 30 a 39 anos, e a maioria teve quadro leve e evoluiu para cura sem hospitalização.
Quando ocorre internação, os motivos mais comuns são:
- Dor intensa nas lesões, principalmente na boca, na região genital e no ânus
- Infecção bacteriana secundária na pele
- Dificuldade para comer, engolir ou se hidratar
- Imunidade muito baixa, como no HIV avançado
- Complicações em órgãos como olhos, pulmão, coração ou cérebro
Mensagem importante
Qualquer pessoa pode ter mpox, e o diagnóstico não é motivo de vergonha. Quanto mais cedo a pessoa procura atendimento, mais rápido recebe cuidado, testes para outras IST quando indicados e orientação sobre isolamento e vacina.
Tratamento
Não existe tratamento específico para todos os casos. Na maioria das vezes o cuidado é de suporte, para aliviar sintomas e prevenir complicações:
- Hidratação e repouso
- Medicamentos para dor e febre, sob orientação médica
- Cuidado com a pele: deixar as lesões secarem ou cobri-las, evitando coçar para não causar infecção
- Isolamento até a queda das crostas
- Tratamento das outras infecções associadas, quando existirem, como HIV e sífilis
Em casos graves ou em pessoas de maior risco, o médico pode indicar antivirais. O tecovirimat é um antiviral desenvolvido para varíola humana e aprovado para uso contra a mpox em alguns países. Em situações específicas pode ser usada ainda a imunoglobulina vaccinia. Ambos dependem de avaliação e prescrição médica.
Prevenção
- Evitar contato próximo com pessoas com suspeita ou diagnóstico de mpox
- Lavar as mãos com frequência
- Não compartilhar toalhas, roupas de cama e utensílios com quem está doente
- Pessoas com sintomas devem se isolar e procurar atendimento
- Cozinhar bem alimentos de origem animal, em regiões onde o vírus circula em animais
- Vacinar-se, quando houver indicação
A vacina contra a mpox
Qual é a novidade
O Ministério da Saúde autorizou a aquisição de 20 mil doses da vacina contra a mpox para reforçar o estoque do SUS. A compra tem caráter preventivo e busca garantir imunizantes para atender às necessidades dos estados, mesmo com a redução de casos no país.
O que a vacina faz
A vacina usada no Brasil é a MVA-BN, que consta nas decisões da Anvisa pelos nomes Jynneos e Imvanex. Ela é feita com uma versão enfraquecida e modificada de um vírus parente (vírus vaccinia Ankara modificado), que não consegue se multiplicar nas células humanas. Por isso ela não causa a mpox.
Como funciona
- A vacina apresenta ao sistema imunológico uma "imagem" do grupo de vírus da varíola, sem risco de doença.
- O corpo aprende a reconhecer esse grupo e produz anticorpos e células de defesa.
- Como o vírus mpox é parente próximo, o corpo já está preparado para reagir se encontrá-lo.
- O resultado esperado é menor risco de se infectar e, se a infecção acontecer, menor risco de doença grave.
Esquema de vacinação
O esquema prevê duas doses, com intervalo de 28 dias. A proteção mais completa costuma ser alcançada cerca de duas semanas depois da segunda dose.
Vacina depois do contato com o vírus
Para quem foi exposto ao vírus, a vacinação é recomendada preferencialmente nos primeiros quatro dias, mas pode ser aplicada em até 14 dias. Depois desse período, a proteção contra a infecção é menor, mas a vacina ainda pode reduzir o risco de agravamento. Quanto antes, melhor, por isso quem teve contato de risco deve procurar a vigilância em saúde logo.
Quem pode tomar no SUS agora
A vacinação é prioritária para pessoas vivendo com HIV/aids com CD4 abaixo de 100 células/mm³. Também podem receber doses remanescentes pessoas com CD4 abaixo de 200, usuários de PrEP e profissionais de laboratório que manipulam amostras do vírus. Também pode ser vacinado quem teve contato de risco com um caso suspeito ou confirmado, após avaliação da vigilância. Como as doses são limitadas, os grupos prioritários devem procurar o serviço de referência onde fazem acompanhamento para cadastro e agendamento.
Efeitos esperados
Em geral são leves: dor, vermelhidão e inchaço no local da aplicação, cansaço, dor de cabeça ou febre baixa. Quem já teve reação alérgica grave a algum componente da vacina deve conversar com o médico antes.
Perguntas frequentes
Mpox é transmitida por mosquito ou outro inseto?
Não. A transmissão ocorre pelo contato com lesões, secreções e objetos contaminados, ou por contato com animais infectados em algumas regiões.
Mpox é uma infecção sexualmente transmissível?
Ela pode ser transmitida por contato sexual, mas não só por ele. Qualquer contato próximo com as lesões ou com objetos contaminados pode transmitir.
Mpox é a mesma coisa que varíola?
Não. São doenças de vírus parentes. A varíola humana foi erradicada, e a mpox costuma ser menos grave.
A mpox tem cura?
Na maioria dos casos, o corpo elimina o vírus sozinho em 2 a 4 semanas. O acompanhamento é importante para tratar sintomas e evitar complicações.
Quem tem HIV pega mpox mais grave?
Depende das defesas do corpo. Quem tem HIV controlado com tratamento tem risco menor. O risco de formas graves e de internação é maior em quem tem HIV sem tratamento ou com CD4 muito baixo.
Quem tem mpox precisa fazer exame de HIV e sífilis?
Em geral, sim. É comum que o médico peça esses exames, porque a coinfecção é frequente.
Quando a mpox exige internação?
Quando há dor muito forte, infecção secundária, dificuldade para comer e beber, ou quando a pessoa tem imunidade muito baixa.
Qual a faixa etária mais atingida no Brasil?
Segundo o painel do Ministério da Saúde, de 29 a 49 anos.
A vacina pode causar mpox?
Não. O vírus da vacina não se multiplica em células humanas.
Qual o prazo para tomar a vacina após o contato?
O ideal é nos primeiros quatro dias, com limite de até 14 dias.
Conclusão
Em 2026, o Brasil confirmou 633 casos de mpox, com maior impacto entre 29 e 49 anos e concentração no Rio de Janeiro e em São Paulo. A mpox não vem de picada de inseto: ela passa pelo contato próximo com lesões, secreções e objetos contaminados. Na maioria das pessoas é uma doença que melhora sozinha, mas pode ser séria em quem tem HIV sem controle ou defesas muito baixas, e costuma vir acompanhada de outras IST, por isso o cuidado completo inclui testagem. A vacina é uma ferramenta importante de proteção, e o reforço do estoque pelo Ministério da Saúde mostra que a vigilância segue ativa. Se você tem lesões suspeitas ou teve contato de risco, não espere: procure um serviço de saúde.
Este conteúdo tem finalidade educativa e não substitui a avaliação, o diagnóstico ou a orientação de um médico. Cada caso deve ser analisado individualmente por um profissional de saúde.
Fontes
- Ministério da Saúde. Painel Mpox, Centro Nacional de Inteligência Epidemiológica e Vigilância Genômica. Dados atualizados em 06/11/2026
- Ministério da Saúde. Nota sobre a aquisição de até 20 mil doses da vacina contra mpox pelo Fundo Rotatório da OPAS (novembro de 2026)
- Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS/OMS). Mpox: informações e perguntas e respostas
- Organização Mundial da Saúde (OMS). Mpox e pré-qualificação da vacina MVA-BN
- Anvisa. Decisões de dispensa de registro e renovação para as vacinas contra mpox
- The Impact of HIV Coinfection on Mpox Patients: A Systematic Review and Meta-Analysis. Emerging Microbes & Infections, 2026
- Brazilian Journal of Infectious Diseases, março de 2026. Estudo brasileiro sobre mpox e coinfecção com IST
- Epidemiologia e Serviços de Saúde, 2024, vol. 33. Casos de mpox notificados na cidade do Rio de Janeiro
- Open Forum Infectious Diseases, 2023 (DOI 10.1093/ofid/ofad500.2297). Coinfecção de mpox com HIV e IST em base de dados nacional
- Secretaria de Estado da Saúde do Rio de Janeiro. Casos de mpox em 2026
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