Imagine uma paciente que chega à consulta com uma lista de cinco suplementos diferentes, todos indicados por vídeos que viu nas redes sociais. Ela pergunta: "doutora, não é melhor eu tomar tudo isso, já que todo mundo está tomando?"
"Os dados e o caso clínico citados neste artigo são fictícios e têm fim meramente ilustrativo, servindo para facilitar a compreensão do tema abordado."
Não existe uma lista oficial de suplementos para todo brasileiro
Por mais que as redes sociais deem essa impressão, não existe um protocolo de "suplementos que todo mundo deveria tomar". A medicina baseada em evidências não recomenda suplementação universal para a população saudável em geral. O motivo é simples: para quem já tem níveis adequados de vitaminas e minerais, suplementar não traz benefício e ainda pode trazer riscos, sem falar no custo desnecessário.
O que existe são recomendações específicas para grupos que, por idade, condição de saúde ou hábitos alimentares, realmente se beneficiam de determinado nutriente. Fora desses grupos, a suplementação deveria ser decidida caso a caso, com exame de sangue e orientação médica.
Vitamina D: o suplemento mais debatido
A vitamina D é hoje o exemplo mais discutido dessa confusão. Em 2024, um estudo publicado pela Sociedade de Endocrinologia americana (Endocrine Society) e a Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM) concluíram que adultos saudáveis com menos de 75 anos não precisam de suplementação além da ingestão diária recomendada, nem de exames de rotina, mesmo em casos de obesidade ou pele mais escura, fatores que costumam ser usados como justificativa para suplementar.
Isso não significa que a vitamina D seja irrelevante. Alguns grupos se beneficiam claramente da suplementação:
- Crianças e adolescentes, de 1 a 18 anos, para prevenir raquitismo e reduzir o risco de infecções respiratórias
- Idosos acima de 75 anos
- Gestantes
- Pessoas com pouca exposição solar, obesidade, má absorção intestinal ou doenças ósseas
Vale lembrar que, mesmo em um país ensolarado como o Brasil, a deficiência de vitamina D não é rara: um estudo recente encontrou 15,3% de deficiência e 50,9% de insuficiência na população brasileira. Ainda assim, isso não muda a recomendação: a decisão de suplementar deve vir de uma avaliação individual, não de uma regra geral.
Ácido fólico: a exceção com recomendação forte
Aqui a ciência é bem consolidada. Mulheres em idade fértil que planejam engravidar devem suplementar ácido fólico, idealmente de um a três meses antes da concepção até o final do primeiro trimestre, para reduzir o risco de malformações no tubo neural do bebê. É uma recomendação tão sólida que o Brasil fortifica obrigatoriamente as farinhas de trigo e milho com ácido fólico e ferro desde os anos 2000, por determinação da Anvisa.
Ferro: só para quem realmente precisa
O ferro é indicado para grupos com maior risco de anemia, como gestantes, crianças pequenas e mulheres com menstruação intensa. Para homens adultos e mulheres na pós-menopausa, a suplementação sem diagnóstico de deficiência não é recomendada, porque o excesso de ferro no organismo também traz riscos à saúde.
Vitamina B12: atenção a grupos específicos
A vitamina B12 tem indicação clara para vegetarianos estritos e veganos, já que a única fonte natural desse nutriente é de origem animal. Também merece atenção em idosos, que costumam absorver menos B12 com o passar dos anos, e em pessoas que usam metformina ou inibidores de bomba de prótons por longos períodos, medicamentos que podem reduzir a absorção dessa vitamina.
Ômega-3: a prioridade é a alimentação
Diferente da vitamina D e do ácido fólico, o ômega-3 não tem consenso como suplemento universal. A evidência é mista, e a recomendação principal continua sendo priorizar o consumo de peixes na dieta. A suplementação tem indicação mais clara em situações específicas, como triglicerídeos muito altos, sempre sob prescrição médica.
O que fazer, então?
O ponto central é que essas recomendações são individualizadas. Elas dependem de exame de sangue, faixa etária, hábitos alimentares e condição clínica de cada pessoa, não de uma lista pronta que vale para todo mundo. Antes de começar qualquer suplemento por conta própria, o caminho mais seguro é conversar com um médico e, se necessário, fazer os exames que mostrem o que realmente falta no seu organismo.
Este conteúdo tem caráter informativo e não substitui consulta, diagnóstico ou tratamento médico. Procure sempre orientação profissional antes de iniciar qualquer suplementação.
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