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Entre 28 e 31 de agosto de 2026, a Sociedade Europeia de Cardiologia reuniu especialistas do mundo todo e publicou novas diretrizes sobre insuficiência cardíaca e sobre a definição de infarto do miocárdio. As mudanças simplificam a forma como essas doenças são classificadas, reforçam a importância da prevenção e trazem novas opções de tratamento. Neste artigo, explico o que mudou e por que isso é relevante para você e sua família.
Caso ilustrativo
Dona Maria, 68 anos, começou a sentir falta de ar ao subir escadas e inchaço nos tornozelos no fim do dia. Ao procurar atendimento, o exame de ecocardiograma mostrou que o coração dela ainda bombeava sangue de forma adequada, mas não relaxava direito entre um batimento e outro. Até pouco tempo atrás, esse tipo de alteração tinha uma classificação um pouco confusa. Com as novas diretrizes, o diagnóstico de Dona Marta ficou mais claro e o plano de tratamento, mais objetivo.
Os dados e o caso clínico citados neste artigo são fictícios e têm fim meramente ilustrativo, servindo para facilitar a compreensão do tema abordado.
O que foi o Congresso Europeu de Cardiologia 2026
Todos os anos, a Sociedade Europeia de Cardiologia (conhecida pela sigla ESC) reúne médicos e pesquisadores de diversos países para apresentar as descobertas mais recentes da cardiologia. Em 2026, o encontro aconteceu em Munique, na Alemanha, e resultou na publicação de novas diretrizes, que são documentos oficiais usados por médicos do mundo todo como guia para diagnóstico e tratamento.
Duas dessas publicações merecem destaque especial: a diretriz sobre insuficiência cardíaca e a nova definição de infarto do miocárdio.
O que mudou no diagnóstico de insuficiência cardíaca
A insuficiência cardíaca acontece quando o coração não consegue bombear sangue de forma suficiente para atender às necessidades do corpo. Ela não é uma doença única, mas sim um conjunto de sinais e sintomas, como cansaço, falta de ar e inchaço nas pernas.
Até 2026, os médicos dividiam a insuficiência cardíaca em três tipos, de acordo com a capacidade do coração de bombear sangue (a chamada fração de ejeção). Agora, essa divisão foi simplificada para apenas dois tipos:
- Fração de ejeção reduzida, quando o coração bombeia menos de 50% do sangue que enche o ventrículo a cada batimento
- Fração de ejeção preservada, quando o coração bombeia 50% ou mais
Essa simplificação aconteceu porque os pacientes que antes ficavam numa categoria intermediária respondem aos tratamentos de forma parecida com os de fração reduzida.
Outra mudança importante de linguagem: o termo "insuficiência cardíaca aguda" foi substituído por "insuficiência cardíaca descompensada". A ideia é deixar claro que, na maioria das vezes, a piora não acontece de forma repentina, mas sim aos poucos, até que o coração não consiga mais compensar suas dificuldades.
As novas diretrizes também passaram a organizar o cuidado por estágios, do risco de desenvolver a doença até os casos mais avançados. Isso reforça algo que já defendo com meus pacientes: quanto mais cedo identificamos fatores de risco, maior a chance de prevenir o problema.
Novidades no tratamento da insuficiência cardíaca
As diretrizes de 2026 trouxeram também mudanças no tratamento medicamentoso, entre elas:
- Remédios da classe dos antagonistas do receptor mineralocorticoide passaram a ser recomendados para praticamente todos os pacientes com insuficiência cardíaca crônica, independentemente do tipo
- Medicamentos como semaglutida e tirzepatida, já conhecidos pelo controle de peso e diabetes, agora têm recomendação para pacientes com fração de ejeção preservada e obesidade
- Ganharam mais força as recomendações para dispositivos e procedimentos, como suporte circulatório mecânico e reparo da valva mitral por cateter
O que mudou na definição de infarto do miocárdio
O infarto do miocárdio acontece quando parte do músculo do coração deixa de receber sangue e oxigênio suficientes, geralmente por causa de uma obstrução em uma artéria coronária.
Até 2026, os médicos classificavam o infarto em cinco tipos numerados, de 1 a 5, uma linguagem pouco compreensível para os próprios pacientes. A nova definição universal, elaborada em conjunto pelas principais sociedades de cardiologia do mundo, substituiu essa numeração por três categorias mais fáceis de entender:
- Infarto primário, que acontece de forma espontânea por um problema na própria artéria coronária, geralmente o rompimento de uma placa de gordura
- Infarto secundário, que ocorre quando outra condição de saúde grave faz o coração precisar de mais oxigênio do que consegue receber
- Infarto relacionado a procedimento, que pode acontecer durante ou após uma cirurgia ou intervenção cardíaca
Essa mudança tem um objetivo direto: facilitar a conversa entre médico e paciente. Como explicou uma das autoras do documento, é muito mais fácil entender "seu infarto aconteceu porque a artéria entupiu de repente" do que "você teve um infarto tipo 2".
Por que isso importa para você
Essas diretrizes não são apenas documentos técnicos guardados em revistas científicas. Elas mudam, na prática, como o médico conversa com você sobre seu diagnóstico, quais exames são pedidos e quais tratamentos são oferecidos.
Se você tem falta de ar, cansaço fora do comum ou inchaço nas pernas, ou se já teve um infarto e ficou com dúvidas sobre o tipo que sofreu, vale conversar com seu cardiologista sobre o que essas novidades significam no seu caso específico.
Outras diretrizes lançadas no mesmo congresso
Além das duas atualizações principais, o congresso de 2026 também trouxe:
- A primeira diretriz europeia dedicada exclusivamente à reabilitação cardíaca, reforçando que exercício físico, apoio emocional e educação em saúde caminham juntos na recuperação após um evento cardíaco
- A primeira diretriz conjunta sobre doença cardiovascular e doença renal crônica, recomendando que todo paciente com problema no coração seja também avaliado quanto à saúde dos rins
Perguntas frequentes
O que é insuficiência cardíaca com fração de ejeção preservada?
É quando o coração consegue bombear uma quantidade normal de sangue a cada batimento, mas tem dificuldade para relaxar e se encher entre um batimento e outro. Isso também pode causar cansaço, falta de ar e inchaço.
O infarto do miocárdio agora é classificado de forma diferente?
Sim. A antiga classificação numérica, de tipo 1 a tipo 5, foi substituída por três categorias: infarto primário, secundário e relacionado a procedimento.
Essas mudanças afetam meu tratamento atual?
Não é necessário interromper ou trocar nenhum tratamento por conta própria. As diretrizes orientam os médicos na avaliação de novos pacientes e na revisão periódica de casos já em acompanhamento. Qualquer ajuste deve ser discutido com seu cardiologista.
Preciso fazer novos exames por causa dessas diretrizes?
Depende do seu histórico de saúde. O ideal é levar suas dúvidas na próxima consulta de rotina, para que o médico avalie se algum exame adicional é indicado no seu caso.
Conclusão
As novas diretrizes de 2026 sobre insuficiência cardíaca e infarto do miocárdio representam um esforço para tornar o diagnóstico mais simples, o tratamento mais direcionado e a comunicação entre médico e paciente mais clara. Conhecer essas mudanças ajuda você a participar ativamente do seu próprio cuidado.
Este conteúdo tem finalidade educativa e não substitui a avaliação, o diagnóstico ou o tratamento oferecido por um médico. Cada caso é único e deve ser sempre discutido com o profissional que acompanha sua saúde.
As informações citadas neste artigo têm como base as diretrizes 2026 da Sociedade Europeia de Cardiologia (ESC), publicadas no European Heart Journal, e podem sofrer atualizações conforme novas evidências científicas surjam.
Este conteúdo (texto) é de titularidade exclusiva da Dra. Rebeca Soares Andrade e está protegido pela Lei nº 9.610/98 e Art. 20 do Código Civil. É expressamente proibida a reprodução, download, edição ou republicação deste material em outros canais sem autorização prévia por escrito. Compartilhamentos são permitidos exclusivamente através das ferramentas nativas desta plataforma.