Homem, 25 anos, relata que não bebe durante a semana, mas todos os finais de semana consome 6 a 10 doses de álcool, frequentemente até se embriagar. Já bebeu mais do que pretendia, teve falhas de memória e problemas após o consumo. Familiares e pessoas de seu convívio já pediram que reduzisse, e ele admite ter tentado, sem sucesso. Fica irritado com as críticas e sente culpa após algumas situações. Apesar disso, acredita não ter problema porque “só bebe aos finais de semana”.

"Os dados e o caso clínico citados neste artigo são fictícios e têm fim meramente ilustrativo, servindo para facilitar a compreensão do tema abordado."

Muitas pessoas passam por isso e considera normal mas precisa de uma avaliação mais precisa e de ajuda para superar essa dependência.

Para saber se você bebe muito álcool ou tem sinais de dependência, existem testes que ajudam a orientar uma conversa ou um encaminhamento para tratamento, mas eles não fecham um diagnóstico final sozinhos Veja abaixo:

Teste de AUDIT:

Triagem sobre o consumo de álcool

  1. Com que frequência você consome bebidas que contêm álcool?
  • Nunca (0 pontos)
  • Uma vez por mês ou menos (1 ponto)
  • Duas a quatro vezes ao mês (2 pontos)
  • Duas a três vezes por semana (3 pontos)
  • Quatro ou mais vezes por semana (4 pontos)
  1. Quantas bebidas com álcool você consome em um dia normal?
  • 1 ou 2 (0 pontos)
  • 3 ou 4 (1 ponto)
  • 5 ou 6 (2 pontos)
  • 7 a 9 (3 pontos)
  • 10 ou mais (4 pontos)
  1. Com que frequência você consome cinco ou mais bebidas em uma única ocasião?
  • Nunca (0 pontos)
  • Menos do que uma vez por mês (1 ponto)
  • Uma vez por mês (2 pontos)
  • Uma vez por semana (3 pontos)
  • Diariamente ou quase diariamente (4 pontos)
  1. Com que frequência, no último ano, você não conseguiu parar de beber, depois de ter começado?
  • Nunca (0 pontos)
  • Menos do que uma vez por mês (1 ponto)
  • Uma vez por mês (2 pontos)
  • Uma vez por semana (3 pontos)
  • Diariamente ou quase diariamente (4 pontos)
  1. No último ano, com que frequência você deixou de fazer algo que seria normalmente esperado de você por causa da bebida?
  • Nunca (0 pontos)
  • Menos do que uma vez por mês (1 ponto)
  • Uma vez por mês (2 pontos)
  • Uma vez por semana (3 pontos)
  • Diariamente ou quase diariamente (4 pontos)
  1. Com que frequência, no último ano, você sentiu necessidade de uma bebida pela manhã para se recuperar de uma noite de bebedeira?
  • Nunca (0 pontos)
  • Menos do que uma vez por mês (1 ponto)
  • Uma vez por mês (2 pontos)
  • Uma vez por semana (3 pontos)
  • Diariamente ou quase diariamente (4 pontos)
  1. Com que frequência, no último ano, você sentiu culpa ou remorso depois de beber?
  • Nunca (0 pontos)
  • Menos do que uma vez por mês (1 ponto)
  • Uma vez por mês (2 pontos)
  • Uma vez por semana (3 pontos)
  • Diariamente ou quase diariamente (4 pontos)
  1. Com que frequência, no último ano, você esqueceu o que aconteceu durante a noite devido à bebedeira?
  • Nunca (0 pontos)
  • Menos do que uma vez por mês (1 ponto)
  • Uma vez por mês (2 pontos)
  • Uma vez por semana (3 pontos)
  • Diariamente ou quase diariamente (4 pontos)
  1. Você ou uma outra pessoa sofreu alguma lesão porque você bebeu?
  • Não (0 pontos)
  • Sim, mas não no último ano (2 pontos)
  • Sim, durante o último ano (4 pontos)
  1. Algum parente, amigo, ou profissional de saúde já esteve preocupado com seu consumo de bebidas ou sugeriu que diminuísse?
  • Não (0 pontos)
  • Sim, mas não no último ano (2 pontos)
  • Sim, durante o último ano (4 pontos)

Responda a essas perguntas acima e some a pontuação:

  • Baixo risco (0 a 7 pontos) Você provavelmente não tem problema com álcool. Continue bebendo com moderação ou sem beber.
  • Risco médio (8 a 15 pontos) Você pode beber muito algumas vezes. Isso pode colocar você ou outras pessoas em risco. Tente diminuir o consumo de álcool ou pare de beber completamente.
  • Alto risco (16 a 19 pontos) Seu consumo de álcool pode levar a danos, se ainda não tiver levado. É importante que você reduza o consumo de álcool ou pare de beber completamente. Peça conselhos ao seu médico sobre a melhor forma de reduzir o consumo de álcool.
  • Provavelmente você está viciado (20+ pontos) É provável que seu consumo de álcool esteja causando danos. Fale com seu médico ou com um especialista em vício. Pergunte sobre medicamentos e terapia que possam ajudá-lo a parar de beber. Se estiver dependente do álcool, não pare de beber sem a ajuda de um profissional de saúde.

Teste de CAGE:

  • C (Cut down): Alguma vez você sentiu que deveria diminuir a bebida ou parar de beber?
  • A (Annoyed): As pessoas te aborrecem porque criticam o seu jeito de beber?
  • G (Guilty): Você se sente culpado pelo que faz quando bebe?
  • E (Eye-opener): Você bebe logo de manhã para diminuir o medo ou a ressaca?

Duas ou mais respostas "sim" indicam um forte sinal de alerta.

Intoxicação aguda por álcool

O álcool é uma droga depressora e, geralmente, quem bebe não consegue parar no primeiro copo: acaba indo para o segundo, e o consumo vai se acumulando, podendo chegar a uma intoxicação aguda por álcool, que causa sintomas como:

  • Euforia, perda da censura
  • Tontura e incoordenação
  • Comportamento emocional afetado
  • Confusão podendo levar até ao coma
  • Grave alteração do comportamento com pouca quantidade de álcool

##Critérios diagnósticos (DSM- 5)

O diagnóstico segue os critérios do DSM - 5, manual de referência para diagnósticos em saúde mental. São 11 critérios ao todo:

  • Consumo exagerado: Beber em maiores quantidades ou por mais tempo do que o planejado.
  • Tentativas falhas: Desejo persistente ou esforço inútil para diminuir ou controlar o uso.
  • Perda de tempo: Gastar muito tempo para conseguir, usar ou se recuperar dos efeitos do álcool.
  • Fissura (craving): Vontade intensa ou impulso forte para consumir álcool.
  • Negligência de deveres: Falhar em obrigações importantes no trabalho, na escola ou em casa por causa da bebida.
  • Problemas sociais: Continuar bebendo mesmo com brigas ou problemas com amigos e familiares.
  • Abandono de atividades: Deixar de lado passatempos ou tarefas sociais e de lazer por causa do álcool.
  • Riscos físicos: Usar álcool em situações perigosas, como dirigir ou operar máquinas.
  • Uso continuado apesar de danos: Beber mesmo sabendo que tem um problema físico ou mental causado ou piorado pelo álcool.
  • Tolerância: Necessidade de beber cada vez mais para sentir o efeito desejado, ou notar menos efeito com a mesma quantidade.
  • Abstinência: Sintomas físicos desagradáveis ao parar de beber, ou usar álcool para evitar esses sintomas

O diagnóstico exige a presença de pelo menos 2 dos 11 critérios acima citados em um período de 12 meses. A gravidade varia de leve a grave conforme a quantidade de sinais identificados

Leve: Presença de 2 a 3 critérios.

Moderado: Presença de 4 a 5 critérios.

Grave: Presença de 6 ou mais critérios.

Tratamento

O tratamento envolve vários tipos de abordagens:

  • Apoio familiar e acompanhamento terapêutico
  • Grupos de ajuda, como Alcoólicos Anônimos
  • Medicamentos, como naltrexona, acamprosato, dissulfiram e topiramato, que atuam reduzindo a vontade de beber ou os efeitos do álcool

Toda medicação deve ser avaliada quanto aos seus riscos e benefícios antes do uso. Use apenas com orientação médica.

Em casos de abstinência

Leve: o tremor costuma ser a primeira manifestação, junto com insônia e agitação Início nas primeiras 6h de abstinência

Delirium tremens: quadro mais grave, com delírio, confusão mental, taquicardia (aceleração dos batimentos cardíacos), hipertensão (pressão alta) Início de 48 a 96 horas de abstinência

Nesses casos utilizam - se benzodiazepínico, pois, quando usados na dependência, podem causar hipotensão e rebaixamento do nível de consciência. São indicados em quadros de abstinência.

##Complicações da dependência de álcool

  • Cirrose (dando grave progressivo no fígado)
  • Insuficiência cardíaca
  • Lesão cerebelar (comprometimento da região do cérebro responsável pelo equilíbrio e pela coordenação)
  • Deficiência de B1 (tiamina)
  • Síndrome de wernicke -emergência neurológica aguda causada pela falta grave de vitamina B1 (tiamina) no corpo. Afeta o cérebro e provoca confusão mental, dificuldade para andar (ataxia) e problemas nos movimentos dos olhos. Sem tratamento rápido com reposição de vitamina, pode virar um dano mental permanente.
  • Síndrome de korsakoff - distúrbio neurológico crônico, também causado pela falta grave de tiamina (vitamina B1) no cérebro. Que compromete de forma profunda memória recente e a capacidade de reter novos aprendizados. Está fortemente ligada ao alcoolismo crônico ou quadros graves de desnutrição, e é irreversível.

Fique atento aos sinais: o corpo avisa. Para evitar complicações como essas, procure ajuda médica. Se você ou alguém que você conhece precisa de apoio, existe canais de ajuda como o CAPS (Centro de Atenção Psicossocial) ou os Alcoólicos Anônimos (AA) no Brasil.

Este conteúdo tem caráter educativo e informativo, não substituindo consulta, diagnóstico ou tratamento médico individualizado.

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