Resposta rápida
- Zinco: é um mineral, não uma vitamina. Entre os micronutrientes avaliados em crianças brasileiras pequenas, a deficiência de zinco foi a mais frequente (17,8% das crianças de 6 a 59 meses no ENANI-2019). A base da prevenção é a alimentação. Suplemento só com orientação médica.
- Ruído branco: pode ajudar o bebê a dormir, mas precisa de limites: volume baixo, aparelho longe do berço e por tempo limitado.
- Audiometria: por volta dos 3 anos, a criança já costuma conseguir colaborar com o exame. Vale pedir quando há atraso de fala, otites de repetição, dificuldade na escola ou pouca resposta aos sons.
- Saltos do desenvolvimento: fases de choro, sono agitado e mais colo existem, mas o calendário rígido de "saltos" tem pouca comprovação científica. O desenvolvimento é contínuo e cada bebê tem o seu ritmo.
Caso clínico ilustrativo
Lucas tem 3 anos e 4 meses. A mãe conta que ele fala poucas palavras, nem sempre responde quando é chamado de costas e já teve várias otites. Ele recusa carne, adoece com frequência e dorme com uma máquina de ruído branco no volume máximo, apoiada na cabeceira da cama. Na consulta, o pediatra avaliou o desenvolvimento, pediu uma audiometria lúdica, revisou a alimentação e orientou sobre o uso do aparelho de ruído. O exame mostrou uma perda auditiva leve, associada a líquido no ouvido, que foi tratada. A família passou a oferecer alimentos ricos em zinco, afastou a máquina da cama e baixou o volume. Em poucas semanas, Lucas passou a ouvir e a falar melhor.
Os dados e o caso clínico citados neste artigo são fictícios e têm fim meramente ilustrativo, servindo para facilitar a compreensão do tema abordado.
O que foi o 42º Congresso Brasileiro de Pediatria
De 13 a 17 de outubro de 2026, Belo Horizonte (MG) recebeu o 42º Congresso Brasileiro de Pediatria, promovido pela Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP). O evento aconteceu no Expominas e reuniu cerca de 7 mil participantes, entre médicos e estudantes. Também bateu um recorde: foram 4.233 trabalhos científicos aprovados, o maior número da história do congresso.
A programação foi ampla, com mesas sobre nutrição, sono, audição, desenvolvimento infantil, vacinas, saúde mental e saúde digital. Abaixo, reunimos as atualizações mais úteis para o dia a dia das famílias.
Zinco: a carência mais comum em crianças pequenas
O zinco é um mineral importante para o crescimento, a defesa do corpo contra infecções, a cicatrização e o paladar. Muita gente chama de vitamina, mas ele pertence ao grupo dos minerais.
O principal retrato brasileiro vem do ENANI-2019, estudo nacional que avaliou micronutrientes em crianças de 6 a 59 meses. A deficiência de zinco foi de 17,8%, à frente da vitamina B12 (14,2%), da anemia (10%), da vitamina A (6%) e da insuficiência de vitamina D (4,3%).
O que pode estar por trás disso? Principalmente o pouco consumo de alimentos ricos em zinco, como carnes, peixes, ovos, leite e derivados. O zinco de origem vegetal, presente em feijões, grão-de-bico, lentilha, sementes e castanhas, é mais difícil de absorver. Isso não significa que a alimentação vegetal seja ruim, apenas que ela exige mais atenção e acompanhamento.
Sinais como pouco apetite, crescimento mais lento, infecções frequentes e cicatrização demorada podem estar ligados à falta de zinco, mas também têm muitas outras causas. Por isso, o caminho é conversar com o pediatra. A dosagem no sangue ajuda, mas sozinha nem sempre mostra a situação real, e o médico interpreta o resultado junto com a história da criança.
Sobre suplementos: a discussão atual é indicar quando há necessidade e evitar quando não há. O excesso de zinco pode causar desconforto no estômago e atrapalhar a absorção de cobre. Não dê suplemento por conta própria.
Ruído branco: ajuda a dormir, mas tem limite
Aparelhos de ruído branco (chuva, ventilador, chiado constante) são muito usados para acalmar bebês. O ponto de atenção é o volume e a distância.
Um estudo publicado na revista Pediatrics em 2014 testou 14 máquinas de ruído para bebês no volume máximo. Todas passaram de 50 decibéis, que é o limite recomendado para berçários de hospital, e três passaram de 85 decibéis. Os autores recomendaram deixar o aparelho longe do bebê, em volume baixo e por pouco tempo. Vale lembrar que foi um teste de laboratório: ele mediu a intensidade das máquinas, não a audição real dos bebês nem o jeito como as famílias usam o aparelho no dia a dia.
Cuidados práticos:
- deixe o aparelho o mais longe possível do bebê, a pelo menos 2 metros, e nunca dentro do berço ou preso na grade;
- mantenha o volume baixo, parecido com uma conversa em voz baixa;
- use um temporizador, em vez de deixar ligado a noite toda no volume alto;
- a rotina de sono (banho, luz baixa, mesma sequência de passos) continua sendo a base, e o ruído é só um apoio.
Audiometria depois dos 3 anos: acompanhar a audição também é cuidado de rotina
O teste da orelhinha, feito logo após o nascimento, é essencial. A meta é identificar perda auditiva cedo: triagem no primeiro mês, diagnóstico até os 3 meses e início do cuidado até os 6 meses. Só que ele mostra a audição daquele momento. Uma criança pode ouvir bem ao nascer e perder audição depois, por exemplo por otites de repetição, líquido no ouvido, infecções ou exposição a barulho alto.
Por volta dos 3 anos, em geral, a criança já consegue colaborar com a audiometria condicionada, também chamada de lúdica: ela responde aos sons com brincadeiras, usando fones. Quando a criança não colabora bem, o exame pode ser feito em outra data ou com outras técnicas.
Este é o momento de conversar com o pediatra sobre pedir o exame, principalmente se a criança:
- fala menos do que o esperado para a idade ou troca muitos sons;
- tem otites de repetição ou sensação de ouvido tampado;
- não responde quando é chamada, aumenta muito o volume da TV ou pede para repetir;
- está com dificuldade de atenção ou de aprendizado na escola;
- passou por internação neonatal, nasceu prematura ou tem histórico familiar de perda auditiva.
O atraso de fala tem várias causas, e a audição é uma das primeiras a ser conferida, porque é simples de investigar e tem tratamento.
Saltos do desenvolvimento: o que a ciência diz
O termo "saltos do desenvolvimento" ficou famoso com o livro The Wonder Weeks, que descreve fases previsíveis em que o bebê fica mais choroso, dorme pior e quer mais colo antes de aprender algo novo. A ideia nasceu de observações de um casal de pesquisadores, e especialistas apontam que ela não tem comprovação científica replicada. O desenvolvimento infantil acontece de forma contínua, e cada bebê tem o seu ritmo.
Isso não quer dizer que as fases difíceis sejam invenção. Bebês realmente passam por momentos de mais irritabilidade, e o sono muda. Por volta dos 3 a 4 meses, por exemplo, o sono amadurece e fica mais parecido com o do adulto, o que pode causar mais despertares. Também há as mudanças que vêm com dentição, ansiedade de separação e novas habilidades.
A orientação mais segura é acompanhar os marcos do desenvolvimento, e não uma tabela de datas. Converse com o pediatra se o bebê:
- perder uma habilidade que já tinha;
- não olhar nos olhos, não sorrir para as pessoas ou não reagir aos sons;
- estiver atrasado em várias áreas ao mesmo tempo (movimento, fala, interação).
A programação do congresso reforçou o papel do pediatra na identificação precoce de atrasos, com escalas de triagem e vigilância do desenvolvimento ao longo da puericultura.
Outras atualizações que marcaram o congresso
A programação científica trouxe outros temas importantes para as famílias:
- Sono: insônia do bebê, tratamento sem medicação, uso de melatonina e outras medicações e quando investigar a apneia do sono em crianças.
- Suplementação: quando indicar e quando evitar suplementos de ferro, vitamina D e produtos para imunidade e crescimento, sempre com base em evidências.
- Vacinas: esquemas e faixa etária ampliada da vacina contra o HPV, vacinas pneumocócicas de nova geração, prevenção da bronquiolite e do vírus sincicial respiratório e vacinas meningocócicas.
- Telas e saúde digital: impacto das telas e da inteligência artificial no desenvolvimento, além do Estatuto Digital da Criança e do Adolescente.
- Neurodesenvolvimento: triagem do autismo além do M-CHAT, diferenças entre TDAH e outras condições e atraso de fala.
- Triagem neonatal: o que fazer diante de resultados alterados no teste do pezinho ampliado.
- Adolescência e esporte: autoimagem e pressão social, cigarro eletrônico, uso de creatina e whey protein por crianças e adolescentes e prevenção de morte súbita em atletas.
- Saúde ambiental: calor, poluição e microplásticos e seus efeitos na saúde infantil.
Perguntas frequentes
Zinco é vitamina?
Não. O zinco é um mineral. Ele é essencial para o crescimento e para as defesas do corpo, e a falta dele é a carência mais frequente entre os micronutrientes avaliados em crianças brasileiras pequenas.
Posso dar suplemento de zinco para meu filho por conta própria?
Não é recomendado. A indicação depende da idade, da alimentação e da avaliação do pediatra. O excesso pode causar desconforto no estômago e atrapalhar a absorção de cobre.
Ruído branco faz mal para o bebê?
O problema não é o ruído em si, e sim o volume alto, a proximidade do berço e o uso por muitas horas. Em volume baixo, longe do bebê e por tempo limitado, o risco é menor.
Com que idade a criança pode fazer audiometria?
Por volta dos 3 anos, muitas crianças já conseguem fazer a audiometria lúdica, com brincadeiras e fones. Antes disso, existem exames adaptados para bebês e crianças menores, indicados pelo pediatra ou pelo otorrinolaringologista.
O teste da orelhinha vale para a vida toda?
Não. Ele avalia a audição no nascimento. Perdas auditivas podem surgir depois, por otites, infecções ou barulho excessivo, e por isso a audição deve ser acompanhada ao longo da infância.
Os saltos do desenvolvimento existem?
Existem fases de mais irritabilidade e mudanças no sono, mas não há comprovação científica de um calendário fixo de saltos para todos os bebês. O melhor guia são os marcos do desenvolvimento, avaliados nas consultas de rotina.
Conclusão
O 42º Congresso Brasileiro de Pediatria reforçou que cuidar da criança é olhar para o conjunto: alimentação com atenção aos micronutrientes como o zinco, sono com hábitos seguros, audição acompanhada ao longo dos anos e desenvolvimento avaliado por marcos, e não por modismos. A mensagem principal é simples: informação confiável e consultas regulares com o pediatra valem mais do que tabelas, suplementos ou aparelhos usados sem orientação.
Este conteúdo tem finalidade educativa e não substitui a avaliação, o diagnóstico ou a orientação de um médico. Cada caso deve ser analisado individualmente por um profissional de saúde.
Fontes
- Sociedade Brasileira de Pediatria. Programação científica do 42º Congresso Brasileiro de Pediatria, 2026: https://www.sbp.com.br/wp-content/uploads/2026/09/PROGRAMACAO-CIENTIFICA-42-CONGRESSO-BRASILEIRO-DE-PEDIATRIA_15Setembro.pdf
- Sociedade Brasileira de Pediatria. Em Belo Horizonte, o 42º CBP celebra a força da Pediatria e das tradições da cultura mineira, 2026: https://www.sbp.com.br/em-belo-horizonte-o-42o-cbp-celebra-a-forca-da-pediatria-e-das-tradicoes-da-cultura-mineira/
- Sociedade Brasileira de Pediatria. Com mais de 4 mil trabalhos inscritos, 42º CBP marca recorde histórico, 21/10/2026: https://www.sbp.com.br/com-mais-de-4-mil-trabalhos-inscritos-42o-cbp-marca-recorde-historico-para-producao-cientifica-da-pediatria-brasileira/
- UFRJ. ENANI-2019, Relatório 3: Biomarcadores do estado de micronutrientes em crianças brasileiras menores de 5 anos: https://enani.nutricao.ufrj.br/download/relatorio-3-biomacadores-do-estado-de-micronutrientes/
- Hugh SC et al. Infant sleep machines and hazardous sound pressure levels. Pediatrics, 2014. Resumo divulgado pelo Children's Hospital of Philadelphia: https://www.chop.edu/news/white-noise-not-right-noise
- Sociedade Brasileira de Pediatria. Triagem auditiva neonatal: https://www.sbp.com.br/fileadmin/user_upload/2015/02/triagemauditivaneonatal.pdf
- ABOPE. Criança também faz audiometria?: https://www.abope.org.br/crianca-tambem-faz-audiometria/
- Pais & Filhos. Saltos de desenvolvimento do bebê: por que você não deve usar esse termo e quais marcos prestar atenção: https://paisefilhos.com.br/bebes/saltos-de-desenvolvimento-do-bebe-por-que-voce-nao-deve-usar-esse-termo-e-quais-marcos-prestar-atencao
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