Resposta rápida

Em 28 de outubro de 2026, a farmacêutica Eli Lilly divulgou os primeiros resultados de um grande estudo que comparou, frente a frente, a retatrutida com a semaglutida na dose máxima aprovada para o diabetes tipo 2. Depois de 80 semanas, a retatrutida baixou mais o açúcar no sangue (2,2 pontos de hemoglobina glicada contra 1,8) e fez as pessoas perderem mais que o dobro de peso. A retatrutida ainda é um medicamento experimental, não aprovada em nenhum país, e os dados ainda não passaram pela revisão de revistas científicas.

Caso clínico ilustrativo

Marcos, 54 anos, tem diabetes tipo 2 há oito anos e vive com sobrepeso. Usa metformina todos os dias, mas a glicose continua alta. Ele lê a notícia e pergunta: "Doutora, posso pedir esse remédio novo?" A resposta é que ainda não. Medicamentos experimentais só são usados dentro de estudos aprovados, e o que se vende como "retatrutida" na internet não tem garantia de origem nem de conteúdo. Enquanto o remédio não é aprovado, existem tratamentos já aprovados que podem ser ajustados para o caso dele.

Os dados e o caso clínico citados neste artigo são fictícios e têm fim meramente ilustrativo, servindo para facilitar a compreensão do tema abordado.

O que é a retatrutida

A retatrutida é um medicamento injetável, aplicado uma vez por semana. Ela imita três hormônios que o corpo produz depois das refeições e que ajudam a controlar a fome e o açúcar no sangue:

  • GLP-1: aumenta a saciedade e ajuda o pâncreas a liberar insulina na hora certa.
  • GIP: também estimula a insulina e participa do controle do apetite.
  • Glucagon: hormônio que aumenta o gasto de energia e a queima de gordura.

Os medicamentos já aprovados hoje imitam um ou dois desses hormônios. A retatrutida atua nos três com uma única molécula, e por isso é chamada de "triplo agonista".

Para que ela está sendo estudada

A Lilly testa a retatrutida em um programa grande de estudos de fase 3, a última etapa antes do pedido de aprovação. As condições avaliadas são:

  • obesidade e sobrepeso;
  • diabetes tipo 2;
  • dor no joelho causada por artrose, em pessoas com obesidade;
  • apneia obstrutiva do sono, em pessoas com obesidade.

Por enquanto ela não trata nada oficialmente, porque nenhuma agência reguladora a aprovou.

Como foi o estudo divulgado hoje

O estudo se chama TRANSCEND-T2D-2. O que se sabe sobre ele:

  • Quem participou: 1.298 adultos com diabetes tipo 2 que não conseguiam controlar bem a glicose com metformina, com ou sem outro medicamento chamado inibidor de SGLT2. A hemoglobina glicada de partida ficava entre 7% e 10,5%.
  • Como foi feito: os participantes foram sorteados para três grupos, na proporção de 2 para 2 para 1: retatrutida 9 mg, retatrutida 12 mg ou semaglutida 2 mg. Todos usaram uma injeção por semana por 80 semanas.
  • Aumento gradual da dose: a retatrutida começou em 2 mg e subiu a cada quatro semanas até a dose do grupo.
  • Tipo de estudo: aberto, ou seja, médicos e participantes sabiam qual medicamento estava sendo usado.
  • Continuação: cerca de 650 participantes seguirão com a retatrutida por mais 24 semanas, para avaliar benefício e segurança a longo prazo.

O que o estudo mostrou

Controle do açúcar no sangue. A hemoglobina glicada média de partida era 8,3%. Após 80 semanas, caiu 2,2 pontos nas duas doses de retatrutida e 1,8 ponto com a semaglutida.

Perda de peso. O peso médio de partida era 102,4 kg.

GrupoPerda de peso médiaEm quilos
Retatrutida 9 mg19,5%20,1 kg
Retatrutida 12 mg20,9%21,5 kg
Semaglutida 2 mg9,4%9,5 kg

Outros benefícios. A Lilly informou melhora maior de colesterol (não HDL), triglicerídeos e pressão arterial sistólica com a retatrutida, mas ainda não divulgou os valores. Esses resultados não provam que a retatrutida reduz infarto, AVC ou complicações do diabetes. Isso só pode ser mostrado em estudos mais longos.

Efeitos adversos

Os efeitos mais frequentes foram os do estômago e do intestino, comuns nesse tipo de medicamento.

EfeitoRetatrutida 9 mgRetatrutida 12 mgSemaglutida 2 mg
Diarreia28,3%32,7%26,4%
Náusea21,2%23,8%21,3%
Constipação14,2%13,1%19,8%
Vômitos10,2%15,0%13,2%
Má digestão10,4%8,5%11,6%
Disestesia4,8%6,5%2,7%
Infecção urinária5,8%4,2%5,8%
Abandono por efeito adverso4,8%7,9%2,7%

Pontos de atenção:

  • A dose de 12 mg teve mais diarreia, náusea, vômitos e mais abandonos do tratamento que a dose de 9 mg.
  • Disestesia é uma sensação anormal na pele, como formigamento, queimação ou desconforto ao toque. Apareceu mais com a retatrutida do que com a semaglutida.
  • Essa é uma seleção de dados divulgada de forma preliminar. Ela não permite afirmar que um medicamento é mais seguro que o outro. Os dados completos de segurança ainda serão publicados.

Limites do que foi divulgado

  • Os resultados são do comunicado da própria fabricante, ainda sem publicação em revista científica.
  • Os números de perda de peso e de glicose consideram quem continuou o tratamento por 80 semanas. Na vida real, parte das pessoas interrompe ou ajusta a dose, e o resultado médio pode ser diferente.
  • Na hemoglobina glicada, a superioridade da dose de 12 mg foi comprovada com controle estatístico rigoroso. Para a dose de 9 mg, o resultado foi significativo, mas sem esse mesmo controle.
  • O estudo foi aberto, o que pode influenciar a percepção dos participantes.

Quando a retatrutida poderá chegar às pessoas?

A Lilly informou que pretende pedir a aprovação ao FDA, a agência regulatória dos Estados Unidos, no início de 2027. Esse tipo de análise costuma levar de 10 a 12 meses, então uma eventual aprovação ficaria para o fim de 2027 ou 2028. A aprovação no Brasil depende de um processo próprio na Anvisa. O FDA alerta que qualquer produto vendido online como retatrutida vem do mercado paralelo e não deve ser usado.

Perguntas frequentes

A retatrutida já pode ser comprada ou prescrita?

Não. Ela é experimental e só é usada em estudos clínicos. Produtos vendidos online com esse nome podem ter composição desconhecida, contaminantes e doses incorretas.

A retatrutida é melhor que a semaglutida?

Nesse estudo, em pessoas com diabetes tipo 2, ela baixou mais a glicose e mais o peso. Ainda faltam os dados completos, a publicação científica e a comparação de segurança em mais detalhe.

Quem pode se beneficiar dela no futuro?

Se for aprovada, a indicação seguirá o que os estudos mostrarem. Pelos estudos atuais, os candidatos seriam pessoas com obesidade ou com diabetes tipo 2. A decisão sempre será individual, junto com o médico.

Os efeitos adversos são perigosos?

Os mais comuns foram digestivos e aconteceram sobretudo na fase de aumento da dose. Parte das pessoas abandonou o tratamento por causa deles (de 2,7% a 7,9%, conforme o grupo). Os dados completos de segurança ainda serão divulgados.

Quem usa semaglutida deve trocar de medicamento?

Não. Nenhuma troca deve ser feita por conta própria. Qualquer mudança de tratamento só deve acontecer com orientação médica.

Conclusão

A retatrutida mostrou, em um estudo comparativo grande, resultados superiores aos da semaglutida em controle da glicose e perda de peso em pessoas com diabetes tipo 2. Também trouxe mais efeitos adversos digestivos na dose mais alta e mais casos de disestesia. É uma novidade promissora, mas o caminho até a aprovação ainda passa por análise dos dados completos, publicação científica e avaliação dos órgãos reguladores. Até lá, o tratamento deve seguir o que já está aprovado, com acompanhamento médico.

Este conteúdo tem finalidade educativa e não substitui a avaliação, o diagnóstico ou a orientação de um médico. Cada caso deve ser analisado individualmente por um profissional de saúde.

Fontes

  • Eli Lilly and Company. Retatrutide delivered greater A1C reduction and more than double the weight loss of the highest approved dose of semaglutide in head-to-head trial (comunicado, 28/10/2026). investor.lilly.com
  • ClinicalTrials.gov. Effect of Retatrutide Compared with Semaglutide in Adult Participants with Type 2 Diabetes and Inadequate Glycemic Control with Metformin with or without SGLT2 Inhibitor (TRANSCEND-T2D-2). Identificador NCT06260722.
  • Retatrutide as a Unimolecular GIP/GLP-1/Glucagon Receptor Tri-Agonist: Molecular Design, Pharmaceutical Development and Critical Interpretation of Emerging Phase 3 Evidence. Pharmaceutics, 2026. DOI 10.3390/pharmaceutics18101277.
  • ClinicalTrials.gov. Estudos de fase 3 da retatrutida em obesidade (NCT05929066) e em diabetes tipo 2 (NCT05929079).
  • U.S. Food and Drug Administration. Alertas sobre medicamentos para perda de peso vendidos fora dos canais regulados.

Este conteúdo é de titularidade exclusiva da Dra. Rebeca Soares Andrade e está protegido pela Lei nº 9.610/98 e Art. 20 do Código Civil. É expressamente proibida a reprodução, download, edição ou republicação deste material em outros canais sem autorização prévia por escrito. Compartilhamentos são permitidos exclusivamente através das ferramentas nativas desta plataforma.