Resposta rápida
Não. Os maiores estudos do mundo mostram que a morte súbita em maratonas e meias maratonas é rara, e que a frequência de paradas cardíacas ficou estável em duas décadas. A corrida não é a vilã. Ela costuma ser o gatilho de algo que já estava lá, quase sempre uma doença do coração que a pessoa não sabia que tinha. O que protege é conhecer o seu próprio corpo antes da largada, com uma avaliação feita para você.
Caso clínico ilustrativo
Carlos, 46 anos, nunca tinha feito uma avaliação completa de saúde. Os colegas de trabalho começaram a postar medalhas, e ele pensou: "Eu também consigo". Inscreveu-se na primeira meia maratona e começou a treinar com entusiasmo.
Nas últimas semanas, passou a sentir um aperto no peito no final das corridas. "É só falta de preparo", repetia para si mesmo. Para ficar tranquilo, contratou um check-up de pacote: hemograma, glicose, colesterol, ultrassom. Tudo normal. Ele voltou a treinar aliviado.
Numa consulta individual, a médica fez perguntas que o pacote nunca tinha feito. "Como é esse aperto? Em que momento ele aparece? Alguém da sua família teve problema no coração cedo?" Carlos hesitou e então lembrou: o pai teve um infarto aos 51 anos. Aquela conversa mudou o rumo dos exames. O teste de esforço mostrou uma obstrução importante em uma artéria do coração.
Carlos foi tratado, acompanhado e só voltou a correr com liberação. Meses depois, completou a prova. Hoje ele diz que a medalha é bonita, mas o que mais valeu foi cruzar a linha de chegada sabendo que estava seguro.
Os dados e o caso clínico citados neste artigo são fictícios e têm fim meramente ilustrativo, servindo para facilitar a compreensão do tema abordado.
Primeiro, vamos falar do medo
Você deve ter visto as notícias. Um corredor que passou mal na chegada, outro que não resistiu. É natural que dê um aperto, principalmente se você corre, ama correr ou está pensando em começar.
Esse medo tem um lado bom: ele é o seu corpo pedindo cuidado. A pergunta é o que fazer com ele. Parar de correr não é a resposta, porque o exercício regular protege o coração. Fingir que nada acontece também não. O caminho do meio é entender o que os estudos realmente mostram e cuidar do que dá para cuidar.
O que os estudos dizem
Os maiores estudos do mundo
O principal estudo é o RACER, um registro americano que acompanha paradas cardíacas em provas de corrida. Na primeira fase, com 10,9 milhões de corredores entre 2000 e 2010, foram 59 paradas cardíacas, cerca de 0,54 por 100 mil participantes. Na fase mais recente, com quase 30 milhões de finalistas entre 2010 e 2023, a frequência permaneceu estável, apesar de mais gente correndo.
E há uma boa notícia: a mortalidade caiu quase pela metade, de 0,39 para 0,2 por 100 mil. Os pesquisadores atribuem a melhora principalmente ao atendimento nas provas, com desfibriladores e reanimação rápida.
Registros de outros países contam uma história parecida. Uma meta-análise francesa, que reuniu oito registros com mais de 16 milhões de corredores, encontrou parada cardíaca em 0,82 por 100 mil e óbito em 0,39 por 100 mil. Em outras palavras, é um evento raro.
Alguns achados merecem atenção:
- Entre homens que correm maratona, a frequência foi maior em 2020 a 2023 do que na década anterior, e os pesquisadores ainda não sabem explicar.
- Nas provas de 20 km e meia maratona em Paris, a parada cardíaca foi 15 vezes mais provável no último quilômetro, justamente quando muita gente acelera para fechar bem a prova.
E no Brasil?
Não existe aqui um registro como o RACER. Os estudos são menores, mas contam algo importante.
Em Ribeirão Preto (SP), um estudo de autópsias mostrou que a maioria das mortes súbitas ocorreu por doença das artérias do coração, em homens entre 50 e 70 anos. Não era um estudo só de corredores, mas o padrão é o mesmo que vemos no mundo todo.
Já em Fortaleza (CE), uma pesquisa com 144 corredores de rua concluiu que quase metade tinha risco cardíaco de médio a moderado, que cerca de 36% já tinham sentido algo durante a corrida, como cansaço fora do normal, falta de ar, desconforto no peito ou tontura, e que 44% não informavam seus dados de saúde ao se inscrever, quase sempre porque a prova não pedia.
Esses estudos têm limites: são pequenos e usam respostas dos próprios participantes. Servem como um sinal de alerta, não como um retrato do país. Mas o sinal é claro: muita gente corre sem saber como está por dentro.
Quem precisa de mais atenção
Os estudos mostram padrões, não sentenças. Os principais:
- Homens. No RACER 2, a parada cardíaca foi bem mais frequente em homens do que em mulheres. Isso não significa que mulheres estejam livres de risco.
- Quem corre maratona. A frequência foi maior na maratona do que na meia maratona.
- Quem tem mais de 35 anos. Nessa faixa, a maioria das mortes súbitas ligadas ao exercício vem de doença nas artérias do coração.
- Quem tem doença coronariana sem saber. Foi a causa mais frequente no RACER 2, em 40% dos casos.
- Quem tem histórico familiar de morte súbita. No registro de Paris, 27% dos sobreviventes tinham esse antecedente.
- Quem sentiu sintomas e ignorou. Um terço das pessoas com evento por falta de oxigênio no coração tinha sintomas antes da prova.
- Dias de calor e ar poluído. Em Paris, poluição elevada e temperaturas altas aumentaram o risco de eventos graves.
A corrida é o gatilho, não a culpada
Você tem razão ao separar as duas coisas. O exercício regular protege o coração, mas durante e logo depois de um esforço intenso o risco de um evento agudo sobe de forma temporária. Quando existe uma placa numa artéria, uma alteração elétrica no coração ou uma condição genética, o esforço pode ser justamente o momento em que isso aparece.
Por isso a pergunta mais útil não é "será que devo correr?". É: "o que existe no meu coração que eu ainda não sei?"
Seu corpo não é um pacote
A gente cuida do tênis, do relógio, do plano de treino, da playlist. E esquece de perguntar como está o coração, a pressão, o sono, o estresse, a vida que a gente leva por baixo do uniforme.
Na hora de se cuidar, muita gente recorre a um check-up pronto, aquele pacote igual para todo mundo. O problema é que o pacote não conversa com você. Ele não pergunta sobre o aperto no peito nem sobre o seu pai.
A ciência ajuda a entender isso. Uma grande revisão da Cochrane analisou 17 estudos com cerca de 250 mil pessoas e concluiu que check-ups gerais não reduziram doenças, e também não diminuíram mortes por problemas do coração nem por câncer, embora tenham aumentado o número de diagnósticos. Entre os possíveis prejuízos estão diagnósticos e tratamentos desnecessários, além de ansiedade.
Mas atenção: essa revisão avaliou check-ups gerais, em pessoas sem queixa nenhuma. Não é o seu caso se você vai começar um esforço intenso e tem história, família e sintomas que precisam ser ouvidos. Uma coisa é um exame genérico. Outra é uma conversa feita para você.
Como é um check-up que enxerga você
As diretrizes caminham nessa direção. A diretriz europeia de cardiologia do esporte recomenda avaliar sintomas, fatores de risco e risco cardiovascular em quem tem fatores de risco para aterosclerose, com decisão compartilhada entre médico e paciente. A diretriz brasileira vê a avaliação antes do esporte como uma avaliação médica sistemática, que busca identificar condições potencialmente fatais que o exercício pode desencadear.
Na prática, uma avaliação centrada em você olha para:
- A sua idade e há quanto tempo você está sem treinar
- O que você pretende fazer: distância, intensidade e frequência
- O que você sente no esforço: aperto, falta de ar fora do normal, palpitações, tontura
- A sua família: infarto, morte súbita ou doenças do coração
- Pressão, glicose, colesterol, tabagismo e peso
- A sua rotina: sono, estresse, alimentação, suplementos e estimulantes
- O seu exame físico e, conforme o caso, um eletrocardiograma
A partir daí, o médico decide se precisa ir mais fundo. Dependendo da idade, dos fatores de risco e do tipo de esporte, podem entrar o teste de esforço, o ecocardiograma e, em alguns casos, a tomografia para medir cálcio nas artérias do coração. Quem tem 28 anos e nenhum sintoma não precisa da mesma bateria de quem tem 50, pai com infarto precoce e aperto no peito ao correr.
Sinais que o corpo dá
Uma proposta da Sociedade Brasileira de Cardiologia (Regional Paraíba) e do CRM-PB orienta avaliação prévia principalmente para quem tem mais de 35 anos, doenças associadas, história de doença do coração ou de morte súbita em parentes de primeiro grau, ou sintomas como dor no peito ao esforço, desmaio ou quase desmaio, falta de ar desproporcional e palpitações com mal-estar.
Se algum desses sinais aparecer, pare e procure atendimento. Não é fraqueza, é inteligência.
O que nenhum exame consegue prometer
Vale ser honesto: a avaliação reduz o risco, mas não o zera. Um registro francês encontrou eventos em corredores experientes, com poucos fatores de risco, em alguns casos com teste de esteira normal. E em quase metade dos casos recentes de parada cardíaca em provas não foi possível identificar a causa. A própria diretriz brasileira reconhece que não há estudos randomizados comparando os diferentes modelos de avaliação.
Por isso, além de se avaliar, escolha provas com estrutura de atendimento. Aqui a evidência é forte: a mortalidade caiu graças ao planejamento de emergência, com acesso imediato à desfibrilação, e a reanimação iniciada por quem estava por perto foi um dos principais fatores de sobrevivência.
Perguntas frequentes
Correr maratona causa morte súbita?
Não é a corrida em si. Ela pode ser o gatilho em quem tem uma doença cardíaca ainda não diagnosticada. O risco é baixo, em torno de 1 caso por 100 mil maratonistas nos dados mais recentes.
Quem deve fazer avaliação médica antes de começar a correr?
Todo adulto que vai começar um esforço intenso se beneficia de uma conversa com o médico. Ela é ainda mais importante acima de 35 anos, com pressão alta, diabetes, colesterol elevado, tabagismo, sintomas no esforço ou antecedente familiar de morte súbita.
Basta um atestado de "apto"?
Um papel sem avaliação de verdade não protege ninguém. O que protege é a investigação: ouvir a sua história, examinar e pedir só os exames que fazem sentido para você.
O check-up de pacote serve?
Ele pode mostrar alterações como colesterol e glicose elevados, mas não foi desenhado para você. O melhor caminho é começar pela consulta e escolher os exames depois.
Se meu check-up está normal, posso correr sem medo?
Uma boa avaliação diminui o risco, mas não o elimina. Continue atento a sintomas novos, mesmo que o último exame tenha sido normal.
Mulheres precisam do mesmo cuidado?
O risco de parada cardíaca é menor nas mulheres, mas não é zero. A avaliação deve seguir a história de cada uma.
Conclusão
Correr continua sendo uma das melhores formas de cuidar do coração. Os dados mostram que a morte súbita em provas é rara e está diminuindo. Mesmo assim, começar uma maratona ou meia maratona sem olhar para dentro, sem saber como estão a sua pressão, a sua família e o que o seu corpo já tenta dizer, é deixar ao acaso algo que pode ser investigado.
Cuide de você antes de cuidar do seu tempo de prova. Se você está pensando em se inscrever, ou corre há anos e nunca foi avaliado, agende uma consulta individual. Ela vai olhar para a sua vida, e não para um pacote.
E você, já se avaliou antes de correr? Conte sua experiência nos comentários e compartilhe este conteúdo com quem treina com você, usando as ferramentas de compartilhamento da plataforma.
Este conteúdo tem finalidade educativa e não substitui a avaliação, o diagnóstico ou a orientação de um médico. Cada caso deve ser analisado individualmente por um profissional de saúde.
Fontes
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