Resposta rápida

É verdade, mas com uma ressalva importante. Beber líquidos muito quentes, acima de 65°C, com frequência ao longo dos anos, está associado a um risco maior de um tipo específico de câncer de esôfago, o carcinoma espinocelular. Não é o café, o chá ou o mate em si que causam câncer, e sim a lesão repetida que o calor provoca na parede do esôfago. Essa relação é diferente da que existe entre o esôfago de Barrett e o câncer, que veremos a seguir.

Caso clínico ilustrativo

Um homem de 58 anos, hábito antigo de tomar chimarrão e café bem quentes, chegou ao consultório com dificuldade progressiva para engolir alimentos sólidos nos últimos dois meses. Relatava também perda de peso não intencional. A endoscopia identificou uma lesão no terço médio do esôfago, e a biópsia confirmou carcinoma espinocelular.

Os dados e o caso clínico citados neste artigo são fictícios e têm fim meramente ilustrativo, servindo para facilitar a compreensão do tema abordado.

O que é o câncer de esôfago

O esôfago é o tubo muscular que leva o alimento da boca até o estômago. O câncer de esôfago tem dois tipos principais, e é importante não confundi-los, porque cada um tem causas diferentes.

Carcinoma espinocelular (ou escamoso): nasce nas células que revestem a maior parte do esôfago. Está mais ligado ao tabagismo, ao consumo de álcool e, como veremos, ao hábito de ingerir bebidas muito quentes.

Adenocarcinoma: nasce em células glandulares que substituem o revestimento normal do esôfago, geralmente na porção mais baixa, perto do estômago. Está fortemente ligado ao refluxo gastroesofágico crônico e ao esôfago de Barrett.

Bebidas quentes e câncer de esôfago: o que diz a ciência

Em 2016, a Agência Internacional de Pesquisa em Câncer (IARC), que é o braço da Organização Mundial da Saúde dedicado a avaliar causas de câncer, classificou o consumo de bebidas muito quentes, acima de 65°C, como provavelmente carcinogênico para humanos. Essa avaliação foi baseada em estudos feitos em regiões onde é comum tomar chá, café ou mate em temperaturas bem elevadas, como partes da China, do Irã, da Turquia e da América do Sul.

O ponto central dessa classificação é que não é a bebida que causa o câncer, é a temperatura. Um estudo publicado em 2025, com quase um milhão de participantes no Reino Unido, reforçou essa relação. Ele mostrou que tomar bebidas muito quentes, em vez de mornas, esteve associado a um risco até três vezes maior de carcinoma espinocelular do esôfago. O risco também aumentou conforme a quantidade de bebidas quentes consumidas por dia.

O mecanismo proposto é simples de entender. O calor excessivo, repetido ao longo dos anos, provoca pequenas lesões térmicas na mucosa do esôfago. Essas lesões geram inflamação crônica, e a inflamação crônica é um terreno favorável para o surgimento de células cancerosas.

Importante: essa relação é com o carcinoma espinocelular, não com o adenocarcinoma ligado ao esôfago de Barrett. São mecanismos diferentes.

O que é o esôfago de Barrett

O esôfago de Barrett acontece quando o revestimento normal da parte final do esôfago é substituído por um tecido parecido com o do intestino, num processo chamado metaplasia intestinal. Essa mudança costuma ser resposta a anos de refluxo gastroesofágico não controlado, quando o ácido do estômago sobe repetidamente para o esôfago e machuca sua parede.

O esôfago de Barrett não é câncer. Mas é considerado uma lesão pré-cancerosa, porque em uma parcela dos casos as células podem evoluir para displasia, e depois para adenocarcinoma de esôfago. O risco de progressão está diretamente ligado ao grau de displasia encontrado nas biópsias.

Uma parte importante: o esôfago de Barrett não pode ser diagnosticado só pelos sintomas. O diagnóstico exige endoscopia digestiva alta, com biópsias do revestimento do esôfago.

Sintomas do câncer de esôfago

Nas fases iniciais, o câncer de esôfago costuma não dar sinal nenhum, o que atrasa o diagnóstico. Os sintomas mais comuns, quando aparecem, incluem:

  • Dificuldade progressiva para engolir, primeiro para alimentos sólidos e depois também para líquidos
  • Dor ou desconforto ao engolir
  • Perda de peso não intencional
  • Dor no peito ou atrás do esterno
  • Rouquidão ou tosse persistente
  • Azia e refluxo que pioram ou mudam de padrão
  • Em casos mais avançados, sangramento digestivo e anemia

Qualquer dificuldade para engolir que persista por mais de duas semanas merece avaliação médica, mesmo sem outros sintomas.

Outros fatores que aumentam o risco

Além das bebidas muito quentes e do esôfago de Barrett, outros fatores elevam o risco de câncer de esôfago:

  • Tabagismo, incluindo cigarro e outras formas de tabaco
  • Consumo de álcool, especialmente em conjunto com o tabaco
  • Refluxo gastroesofágico crônico não tratado
  • Obesidade, principalmente relacionada ao adenocarcinoma
  • Dieta pobre em frutas e vegetais
  • Ingestão prévia de substâncias cáusticas, com formação de cicatrizes no esôfago
  • Histórico familiar de câncer de esôfago
  • Idade mais avançada e sexo masculino, que aparecem com mais frequência nos estudos

Fatores de proteção e prevenção

Boa parte do risco de câncer de esôfago pode ser reduzida com mudanças de hábito:

  • Deixar as bebidas quentes esfriarem um pouco antes de tomar, evitando temperaturas acima de 65°C
  • Não fumar e evitar o consumo de álcool, ou reduzir bastante
  • Manter um peso saudável
  • Tratar o refluxo gastroesofágico de forma adequada e continuada
  • Priorizar uma alimentação rica em frutas, vegetais e fibras
  • Fazer acompanhamento endoscópico regular quando já existe diagnóstico de esôfago de Barrett ou de refluxo crônico importante

Tratamento

O tratamento varia bastante conforme o estágio da doença e é sempre definido por uma equipe multidisciplinar, geralmente formada por gastroenterologista, cirurgião e oncologista.

No caso do esôfago de Barrett, o foco inicial é controlar o refluxo, com medicações que reduzem a acidez do estômago e mudanças no estilo de vida. Quando há displasia, técnicas endoscópicas, como a ressecção ou a ablação da área afetada, podem remover o tecido alterado antes que ele evolua para câncer.

Já no câncer de esôfago propriamente dito, as opções incluem ressecção endoscópica para lesões bem iniciais, cirurgia para remoção de parte do esôfago, quimioterapia e radioterapia, isoladas ou combinadas, dependendo da extensão da doença.

Perguntas frequentes

Café e chá causam câncer de esôfago?

Não pela composição da bebida. O que aumenta o risco é a temperatura muito alta com que a bebida é consumida, de forma repetida, ao longo de muitos anos.

Esôfago de Barrett sempre vira câncer?

Não. A maioria das pessoas com esôfago de Barrett nunca desenvolve câncer. O risco existe e aumenta conforme o grau de displasia, por isso o acompanhamento com endoscopia é importante.

Como saber se tenho esôfago de Barrett?

O único jeito de confirmar é com endoscopia digestiva alta e biópsia. Sintomas de refluxo crônico e persistente são um sinal de alerta para procurar avaliação médica.

Qual a temperatura considerada segura para bebidas quentes?

Os estudos associam maior risco a bebidas acima de 65°C. Deixar a bebida esfriar por alguns minutos antes de tomar já reduz esse risco.

Conclusão

É verdade que bebidas muito quentes, consumidas com frequência ao longo dos anos, aumentam o risco de um tipo de câncer de esôfago, o carcinoma espinocelular. Essa relação é diferente da que existe entre o esôfago de Barrett e o adenocarcinoma, que está mais ligada ao refluxo crônico. Conhecer esses fatores de risco ajuda a adotar hábitos de proteção, mas o diagnóstico e o acompanhamento de qualquer alteração no esôfago devem sempre ser feitos por um médico.

Este conteúdo tem finalidade educativa e não substitui a avaliação, o diagnóstico ou o tratamento feito por um médico.

Fontes: IARC/OMS (Monografia Volume 116, 2016), British Journal of Cancer (2025), Hospital Israelita Albert Einstein. Os dados podem variar de acordo com características individuais de cada paciente.

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