Resposta rápida

O Aquipta é o nome comercial do atogepanto, um comprimido de uso diário recém-aprovado pela Anvisa para a prevenção da enxaqueca episódica e crônica em adultos. Ele age bloqueando o CGRP, uma substância do corpo diretamente ligada ao surgimento das crises, e é indicado para quem tem quatro ou mais dias de enxaqueca por mês. Ele não serve para tratar a dor que já começou, apenas para reduzir a frequência das crises.

Caso clínico ilustrativo

Marina, 34 anos, procurou atendimento porque suas dores de cabeça, antes ocasionais, passaram a acontecer seis vezes por mês, sempre de um lado só, latejantes, piorando com a luz e obrigando-a a se deitar em um quarto escuro. Ela já usava analgésico comum quase toda semana, mas a dor voltava e ela começou a faltar ao trabalho. Após avaliação, foi confirmado o diagnóstico de enxaqueca e discutido com ela iniciar um tratamento preventivo, entre as opções apresentadas, o atogepanto.

Os dados e o caso clínico citados neste artigo são fictícios e têm fim meramente ilustrativo, servindo para facilitar a compreensão do tema abordado.

Enxaqueca: uma doença que incapacita, não "só uma dor de cabeça"

A enxaqueca costuma ser tratada como um incômodo passageiro, mas na prática é uma doença neurológica que pode parar a vida da pessoa por horas ou dias inteiros. Durante uma crise forte, muitos pacientes não conseguem trabalhar, estudar, dirigir ou até realizar tarefas simples em casa, porque qualquer luz, som ou movimento pioram a dor.

Quando as crises são frequentes, o impacto vai além do dia da dor. A pessoa passa a viver com medo da próxima crise, evita compromissos, perde produtividade e, com o tempo, pode desenvolver ansiedade relacionada à doença. É por isso que organizações de saúde no mundo todo classificam a enxaqueca entre as condições mais incapacitantes que existem, ao lado de doenças crônicas bem mais discutidas socialmente.

Como se diagnostica a enxaqueca

O diagnóstico da enxaqueca é clínico, feito a partir da história contada pelo paciente, seguindo critérios bem definidos pela Classificação Internacional das Cefaleias (ICHD-3). Não existe um exame de sangue ou de imagem que "mostre" a enxaqueca; os exames servem principalmente para descartar outras causas quando há sinais de alerta.

Para o diagnóstico de enxaqueca sem aura, são necessários:

  • Pelo menos cinco crises que preencham os critérios abaixo
  • Dor de cabeça durando de 4 a 72 horas, quando não tratada ou tratada sem sucesso
  • Pelo menos duas destas quatro características: dor de um lado só, caráter latejante/pulsátil, intensidade moderada a forte, piora com atividade física de rotina (como caminhar ou subir escadas)
  • Durante a crise, pelo menos um dos seguintes sintomas: náusea e/ou vômito, ou sensibilidade à luz e ao som (fotofobia e fonofobia)
  • A dor não é mais bem explicada por outro diagnóstico

Já a enxaqueca com aura é definida por pelo menos duas crises com sintomas neurológicos totalmente reversíveis antes ou junto da dor, como alterações visuais, formigamento ou dificuldade para falar, que se desenvolvem aos poucos e duram menos de 60 minutos.

Quando a dor de cabeça acontece em 15 dias ou mais por mês, por mais de três meses, sendo pelo menos oito desses dias com características de enxaqueca, o quadro é chamado de enxaqueca crônica.

O que é o Aquipta e como ele age

O Aquipta (atogepanto hidratado) é um medicamento oral, tomado uma vez ao dia, aprovado pela Anvisa em setembro de 2026 para a prevenção de crises de enxaqueca em adultos. Ele pertence a uma classe chamada gepantos, medicamentos desenvolvidos especificamente para atuar no mecanismo da enxaqueca, e não fármacos criados originalmente para outras doenças e depois "aproveitados" para a prevenção, como acontecia com boa parte das opções tradicionais.

O alvo do atogepanto é o CGRP (peptídeo relacionado ao gene da calcitonina), uma substância liberada pelo sistema nervoso que participa diretamente da dor e da inflamação envolvidas na crise de enxaqueca. Ao bloquear o receptor do CGRP, o medicamento reduz a ativação dessa via, diminuindo a frequência com que as crises aparecem. É importante entender que ele não trata a dor que já está acontecendo; sua função é prevenir, reduzindo o número de dias de enxaqueca ao longo do mês.

No Brasil, o Aquipta foi aprovado nas apresentações de 10 mg e 60 mg, em caixas com 28 comprimidos, com uso contínuo, uma vez ao dia. As condições exatas de uso seguem a bula aprovada pela Anvisa e devem ser sempre avaliadas por um médico, considerando cada caso.

Benefícios observados nos estudos

A eficácia do atogepanto foi avaliada em estudos de fase 3 (chamados ADVANCE e PROGRESS), publicados em revistas médicas internacionais de peso, envolvendo tanto pacientes com enxaqueca episódica quanto com enxaqueca crônica. Em um dos estudos, pacientes com enxaqueca episódica que usaram a dose de 60 mg por dia tiveram, em média, uma redução de cerca de 4 dias de enxaqueca por mês, contra uma redução menor no grupo que recebeu placebo.

Entre os efeitos adversos mais relatados nos estudos estão constipação intestinal e náusea, geralmente em intensidade leve a moderada. Como qualquer medicamento, seu uso deve ser individualizado, respeitando contraindicações e sendo acompanhado por um profissional.

Quem pode se beneficiar do tratamento preventivo

De forma geral, o tratamento preventivo da enxaqueca é considerado quando a pessoa apresenta:

  • Quatro ou mais dias de enxaqueca por mês (critério de indicação do Aquipta no Brasil)
  • Crises que causam incapacidade significativa, mesmo sendo menos frequentes
  • Resposta insatisfatória ou insuficiente às medicações usadas na crise (abortivas)
  • Uso frequente de analgésicos na crise, com risco de desenvolver cefaleia por uso excessivo de medicação
  • Enxaqueca crônica, ou seja, 15 dias ou mais de dor por mês

A decisão de iniciar, trocar ou associar um tratamento preventivo deve sempre partir de uma avaliação médica individualizada.

Outras opções de tratamento preventivo

O atogepanto é uma opção nova, mas não é a única. Entre as alternativas preventivas usadas atualmente estão:

  • Anticonvulsivantes, como o topiramato
  • Betabloqueadores, como o propranolol
  • Antidepressivos, como a amitriptilina
  • Anticorpos monoclonais anti-CGRP, aplicados por injeção (como erenumabe, fremanezumabe e galcanezumabe), que atuam em mecanismo semelhante ao dos gepantos, mas por via injetável
  • Outros gepantos orais, como o rimegepanto, que também tem indicação preventiva no Brasil

A escolha entre essas opções depende do perfil do paciente, de doenças associadas, de efeitos colaterais anteriores e da preferência entre comprimido diário, comprimido em dias alternados ou injeção periódica.

E o tratamento da crise que já começou? Os medicamentos abortivos

É fundamental entender que a prevenção não substitui o tratamento da crise aguda, ou seja, aquele remédio usado quando a dor já começou. Esses são chamados de medicamentos abortivos, e muitas vezes os dois tipos de tratamento (preventivo e abortivo) são usados juntos.

As principais opções abortivas são:

  • Anti-inflamatórios não esteroides (AINEs), como ibuprofeno e naproxeno, indicados como primeira escolha em crises leves a moderadas, tomados o mais cedo possível no início da dor
  • Triptanos, como sumatriptano, rizatriptano e eletriptano, considerados o padrão-ouro para crises moderadas a fortes; agem especificamente na fisiologia da enxaqueca, mas têm contraindicações em pessoas com certas doenças cardiovasculares
  • Gepantos de uso agudo, como rimegepanto e ubrogepanto, alternativa para quem não pode usar triptano por risco cardiovascular
  • Antieméticos, como metoclopramida, usados para controlar náusea e vômito associados à crise, podendo potencializar o efeito de outros medicamentos abortivos

Um ponto de atenção importante: usar analgésicos ou triptanos com frequência muito alta (geralmente mais de 10 a 15 dias por mês, dependendo da classe do medicamento) pode causar um problema chamado cefaleia por uso excessivo de medicação, que paradoxalmente piora o quadro. Por isso o acompanhamento médico é essencial tanto para escolher o tratamento abortivo quanto para decidir quando partir para a prevenção.

Perguntas frequentes

O Aquipta serve para tratar a dor no momento da crise?

Não. O Aquipta é um medicamento preventivo, tomado diariamente para reduzir a frequência das crises ao longo do tempo. Para a dor que já começou, existem os medicamentos abortivos, que são diferentes.

Quem pode usar o Aquipta?

A indicação aprovada no Brasil é para adultos com enxaqueca episódica ou crônica que apresentam pelo menos quatro dias de enxaqueca por mês. A avaliação de cada caso, incluindo contraindicações, deve ser feita por um médico.

O Aquipta já está disponível nas farmácias brasileiras?

O registro foi aprovado pela Anvisa recentemente. Preço e data de lançamento nas farmácias ainda dependem de definição pela fabricante.

Enxaqueca tem cura?

A enxaqueca não tem cura definitiva, mas tem tratamento eficaz. Com o manejo correto, muitos pacientes conseguem reduzir bastante a frequência e a intensidade das crises, recuperando qualidade de vida.

Toda dor de cabeça forte é enxaqueca?

Não. Existem vários tipos de cefaleia, e alguns sinais (início súbito e muito intenso, febre, alteração de consciência, déficit neurológico) exigem avaliação médica urgente para descartar causas mais graves.

Conclusão

A enxaqueca é uma doença neurológica real, capaz de gerar incapacidade significativa quando não tratada adequadamente. A chegada do Aquipta (atogepanto) amplia as opções de prevenção no Brasil, com um mecanismo direcionado especificamente ao processo da doença. Mas ele é uma peça de um quadro maior: diagnóstico correto, escolha individualizada entre as opções preventivas disponíveis e uso adequado dos medicamentos abortivos nas crises.

Este conteúdo tem caráter educativo e não substitui a consulta, o diagnóstico e o acompanhamento com um médico.

Fontes: Anvisa (registro do Aquipta/atogepanto, setembro de 2026); estudos de fase 3 ADVANCE e PROGRESS (New England Journal of Medicine e The Lancet); International Classification of Headache Disorders, 3ª edição (ICHD-3), International Headache Society. Os números e critérios citados podem variar conforme a fonte e devem ser confirmados na bula vigente e na literatura médica atualizada.

Este conteúdo é de titularidade exclusiva da Dra. Rebeca Soares Andrade e está protegido pela Lei nº 9.610/98 e Art. 20 do Código Civil. É expressamente proibida a reprodução, download, edição ou republicação deste material em outros canais sem autorização prévia por escrito. Compartilhamentos são permitidos exclusivamente através das ferramentas nativas desta plataforma.