Carlos, de 48 anos, sempre acreditou que a azia fazia parte da rotina. Depois das refeições, principalmente à noite, sentia uma queimação intensa no peito, gosto amargo na boca e uma sensação de alimento voltando pela garganta. Com o tempo, começou a perceber dificuldade para engolir alguns alimentos e episódios frequentes de tosse seca durante a madrugada.

Como muitas pessoas, ele tentou aliviar os sintomas apenas com mudanças pontuais na alimentação e medicamentos por conta própria. Porém, após anos convivendo com refluxo frequente, decidiu procurar avaliação médica. Durante a investigação, realizou uma endoscopia digestiva alta e recebeu o diagnóstico de Esófago de Barrett.

Essa é uma condição que merece atenção porque está relacionada a alterações nas células do esófago causadas pela exposição contínua ao ácido do estômago.

O que é o Esófago de Barrett?

O Esófago de Barrett é uma alteração no revestimento interno do esófago, geralmente provocada pelo refluxo gastroesofágico crónico. Nessa condição, as células normais do esófago passam por uma transformação devido à irritação constante causada pelo ácido gástrico.

Embora nem toda pessoa com refluxo desenvolva Esófago de Barrett, o risco aumenta quando os sintomas permanecem por muitos anos sem tratamento adequado.

A principal preocupação relacionada ao Barrett é que, em alguns casos, ele pode aumentar o risco de desenvolvimento de cancro do esófago, especialmente o adenocarcinoma esofágico.

Principais sintomas

Muitas pessoas não apresentam sintomas específicos do Esófago de Barrett em si, mas costumam ter sinais relacionados ao refluxo gastroesofágico, como:

  • Azia frequente

  • Queimação no peito

  • Sensação de refluxo alimentar

  • Gosto amargo na boca

  • Dor ou desconforto após refeições

  • Tosse seca persistente

  • Rouquidão frequente

  • Dificuldade para engolir

  • Sensação de alimento parado na garganta

Em alguns casos, os sintomas podem diminuir com o tempo, mesmo com a progressão da doença, o que faz muitas pessoas acreditarem que houve melhora espontânea.

Principais causas

A principal causa do Esófago de Barrett é o refluxo gastroesofágico crónico. O contato repetitivo do ácido do estômago com o esófago provoca uma agressão contínua à mucosa esofágica.

Outros fatores também podem contribuir para o desenvolvimento da condição:

  • Hérnia de hiato

  • Obesidade, principalmente abdominal

  • Tabagismo

  • Consumo excessivo de álcool

  • Dieta rica em alimentos gordurosos e ultraprocessados

  • Histórico prolongado de refluxo

  • Sexo masculino

  • Idade acima dos 50 anos

  • Histórico familiar de Barrett ou cancro do esófago

Fatores de risco que merecem atenção

Algumas situações aumentam significativamente o risco de desenvolver Esófago de Barrett:

  • Refluxo por mais de 5 anos

  • Sintomas de azia frequentes, principalmente noturnos

  • Excesso de peso

  • Sedentarismo

  • Tabagismo crónico

  • Alimentação inadequada

  • Presença de hérnia de hiato

Pessoas com refluxo persistente devem procurar avaliação médica, especialmente quando os sintomas se tornam frequentes ou começam a interferir na qualidade de vida.

Como é feito o diagnóstico?

O principal exame utilizado para diagnóstico é a endoscopia digestiva alta.

Durante o exame, o médico observa alterações na mucosa do esófago e, quando necessário, realiza biópsias para análise microscópica das células.

A biópsia é fundamental porque ajuda a identificar se existem alterações celulares chamadas displasia, que podem indicar maior risco de evolução para cancro.

Em alguns casos, o acompanhamento periódico com novas endoscopias pode ser necessário para monitorar a evolução da doença.

Qual é o tratamento?

O tratamento do Esófago de Barrett depende do grau de alteração encontrado nos exames.

Os principais objetivos são controlar o refluxo, reduzir a inflamação e acompanhar possíveis mudanças celulares.

As abordagens podem incluir:

Mudanças no estilo de vida

  • Perda de peso

  • Evitar refeições volumosas antes de dormir

  • Reduzir alimentos gordurosos e muito ácidos

  • Suspender o tabagismo

  • Diminuir consumo de álcool

  • Elevar a cabeceira da cama

  • Melhorar hábitos alimentares

Tratamento medicamentoso

Os medicamentos mais utilizados são os inibidores da bomba de protões, que ajudam a reduzir a produção de ácido no estômago e controlar o refluxo.

Tratamentos endoscópicos

Quando existem alterações celulares importantes, podem ser indicados procedimentos específicos realizados por endoscopia para remoção ou destruição das áreas alteradas.

Cirurgia

Em alguns pacientes, principalmente nos casos associados à hérnia de hiato importante ou refluxo grave de difícil controlo, a cirurgia antirrefluxo pode ser considerada.

A importância do acompanhamento

O Esófago de Barrett não significa necessariamente cancro. Porém, é uma condição que exige acompanhamento adequado, principalmente quando há alterações celulares identificadas na biópsia.

O diagnóstico precoce e o tratamento correto ajudam a reduzir complicações e melhoram significativamente a qualidade de vida do paciente.

Ignorar sintomas persistentes de refluxo pode atrasar diagnósticos importantes.

Mensagem final

Sentir azia ocasionalmente pode acontecer, mas refluxo frequente não deve ser considerado normal. Sintomas persistentes merecem investigação médica adequada.

Este conteúdo possui caráter apenas informativo e educacional. Ele não substitui consulta médica, avaliação profissional ou realização de exames. Em caso de sintomas ou dúvidas, procure acompanhamento com um médico.

Dra. Rebeca Soares Andrade CRM-GO 39335