Joana chegou ao serviço de urgência com dor forte na barriga, vómitos que não paravam e muita fraqueza. Ela vinha aplicando, por sua conta, uma "caneta emagrecedora" comprada por indicação de uma amiga, sem receita e sem antes passar por um médico. Precisou ficar internada para investigação e tratamento.
Esse tipo de cena, infelizmente, tem se tornado mais comum nos serviços de urgência do Brasil. Na minha avaliação, falta informação clara sobre o que essas canetas realmente são, para que servem e, principalmente, sobre os riscos de usá-las sem orientação médica. É isso que eu quero explicar de um jeito simples neste artigo.
"Os dados e o caso clínico citados neste artigo são fictícios e têm fim meramente ilustrativo, servindo para facilitar a compreensão do tema abordado."
O que são as canetas emagrecedoras
"Caneta emagrecedora" é o nome popular de um tipo de medicamento injetável usado, originalmente, para tratar diabetes tipo 2. Esse medicamento imita a ação de uma hormona que o próprio intestino já produz naturalmente, chamada GLP-1, e que ajuda a controlar o açúcar no sangue e a sensação de fome.
Com o tempo, os médicos perceberam que esse mesmo medicamento também ajudava a perder peso. Por isso, algumas dessas canetas passaram a ser aprovadas também para o tratamento da obesidade, sempre com indicação médica e critérios bem definidos.
Um ponto importante: essas canetas não são "produtos de estética" nem podem ser usadas por qualquer pessoa que queira emagrecer. São medicamentos de verdade, com contraindicações, efeitos colaterais possíveis e necessidade de acompanhamento médico durante todo o tratamento.
Como esses medicamentos funcionam no corpo
A hormona GLP-1 faz várias coisas no organismo: ajuda o corpo a libertar insulina quando o açúcar no sangue está alto, deixa a digestão mais lenta e manda ao cérebro a sensação de estômago cheio. Na prática, isto significa menos fome, mais saciedade e um açúcar no sangue mais controlado.
As canetas emagrecedoras imitam essa hormona (algumas versões mais novas imitam mais de uma hormona ao mesmo tempo), fazendo esse efeito durar mais tempo no corpo.
As substâncias mais usadas hoje
Existem diferentes tipos de caneta no mercado, e é comum as pessoas confundirem uma com a outra:
- Semaglutida: usada para diabetes tipo 2 e, noutra versão, para obesidade.
- Liraglutida: também usada para diabetes tipo 2 e, noutra versão, para obesidade.
- Dulaglutida: aplicada uma vez por semana, usada para diabetes tipo 2.
- Tirzepatida: age de forma um pouco diferente das outras, imitando duas hormonas ao mesmo tempo, o que aumenta o efeito sobre o açúcar no sangue e sobre o peso. Usada para diabetes tipo 2 e, mais recentemente, também para obesidade.
- Retatrutida: imita três hormonas diferentes. Ainda está sendo testada em pesquisas e, até ao momento, não tem aprovação para venda no Brasil.
Cada uma dessas substâncias funciona de um jeito e tem efeitos colaterais diferentes. Por isso o medicamento certo, na dose certa, é sempre uma decisão que precisa ser individual, feita com um médico, e nunca copiada de outra pessoa só porque "deu certo" com ela.
Os riscos de usar sem acompanhamento médico
Quando esses medicamentos são usados sem avaliação e sem um médico acompanhando, alguns problemas ficam mais comuns:
- Enjoo, vómito e diarreia fortes, que podem levar à desidratação.
- Queda de açúcar no sangue (hipoglicemia), principalmente em quem já toma outros medicamentos para diabetes.
- Pancreatite, uma inflamação no pâncreas que pode ser grave e exigir internação.
- Perda de massa muscular, quando o emagrecimento é muito rápido e não vem acompanhado de orientação sobre alimentação e, quando indicado, atividade física.
- Erro na dose, especialmente em produtos que exigem puxar o medicamento de um frasco com uma seringa, etapa em que é mais fácil errar do que em canetas já prontas com a dose certa.
- Uso por pessoas que nem precisariam do medicamento, o que traz os riscos sem trazer nenhum benefício real.
As autoridades de saúde do Brasil têm registado um aumento nos avisos de efeitos graves ligados a esses medicamentos, incluindo casos de pancreatite e mortes que ainda estão sendo investigadas. Isto reforça por que esse tipo de medicamento só deve ser usado com receita e acompanhamento médico.
Canetas trazidas de outros países: o que mostrou o estudo da Unicamp
Tem crescido a compra de canetas emagrecedoras fabricadas em outros países, geralmente por serem mais baratas. Um ponto que costuma gerar confusão é o seguinte: uma análise feita por pesquisadores da Unicamp encontrou a mesma substância da tirzepatida em amostras de produtos fabricados no Paraguai. Ou seja, a substância em si foi identificada nesses produtos.
Só que isso não quer dizer que esses produtos sejam seguros ou de qualidade garantida. O próprio estudo não avaliou pontos essenciais, como se havia impurezas, contaminação ou se o produto era realmente estéril, nem testou se o medicamento funciona e é seguro da forma como deveria. Segundo a Anvisa, avaliar se um medicamento é seguro vai muito além de saber qual substância ele tem dentro: é preciso avaliar como ele foi fabricado, como foi guardado e, principalmente, como foi transportado.
E é exatamente nesse ponto que mora o maior risco. Esses medicamentos, em geral, precisam ficar refrigerados e ser transportados com muito cuidado. Quando esse cuidado não é garantido do início ao fim do trajeto, do lugar onde o medicamento foi fabricado até à casa de quem vai usar, a qualidade e a segurança do produto ficam comprometidas, mesmo que a substância dentro do frasco esteja correta.
Fatores que aumentam o risco
Alguns fatores deixam o uso desses medicamentos ainda mais perigoso:
- Usar sem diagnóstico ou indicação médica clara.
- Não fazer exames antes de começar nem acompanhamento durante o uso.
- Misturar com outros medicamentos por sua conta.
- Ter histórico pessoal ou na família de pancreatite ou doenças da tireoide, o que exige avaliação cuidadosa antes de começar.
- Aumentar a dose por sua conta, sem seguir o ritmo recomendado pelo médico.
- Comprar por redes sociais ou de vendedores sem garantia de procedência.
Perguntas frequentes
Qualquer pessoa que queira emagrecer pode usar caneta emagrecedora? Não. É um medicamento com indicação médica específica, avaliada caso a caso, levando em conta o histórico de saúde, exames e outros fatores de cada pessoa.
É seguro usar sem receita médica? Não. Usar sem receita e sem acompanhamento aumenta o risco de efeitos graves e impede que a dose seja ajustada da forma certa para cada pessoa.
Se a substância é a mesma, o produto é seguro? Não necessariamente. Saber qual substância o produto tem é só uma parte da avaliação de segurança. Pureza, ausência de contaminação, forma de fabricação e forma de transporte também são fundamentais.
Toda caneta dessa classe serve para emagrecer? Não. Algumas têm indicação apenas para diabetes tipo 2. A indicação para obesidade depende de qual substância é, da dose e do registo específico daquele produto.
Quais sinais indicam que é preciso procurar um médico durante o uso? Vómito que não para, dor forte na barriga, sinais de desidratação, tontura forte ou qualquer sintoma fora do comum são motivo para buscar atendimento médico o quanto antes.
Este conteúdo tem caráter informativo e educativo, não substitui consulta médica. Cada organismo responde de forma diferente a qualquer medicação, e decisões sobre início, ajuste ou interrupção de tratamento devem ser sempre feitas junto a um médico.
Dra. Rebeca Soares Andrade CRM - GO 39335