Marcos, 42 anos, foi ao médico fazer um check up de rotina antes de voltar a treinar academia. No exame de sangue, as enzimas do fígado (TGO e TGP) vieram levemente alteradas. O ultrassom de abdome mostrou "esteatose hepática leve". Marcos nunca bebeu álcool com frequência, não sentia nada de diferente no corpo e ficou sem entender como isso era possível. Essa cena se repete todos os dias nos consultórios brasileiros, porque a gordura no fígado é hoje uma das doenças mais comuns e mais silenciosas do país.
"Os dados e o caso clínico citados neste artigo são fictícios e têm fim meramente ilustrativo, servindo para facilitar a compreensão do tema abordado."
O que é a esteatose hepática
Esteatose hepática é o nome médico para o acúmulo de gordura dentro das células do fígado. Um pouco de gordura no fígado é normal, mas quando ela passa de cerca de 5% do peso do órgão, o quadro já é considerado doença.
Hoje o nome técnico usado pela comunidade médica mudou de "doença hepática gordurosa não alcoólica" (NAFLD, na sigla em inglês) para MASLD, doença hepática esteatótica associada à disfunção metabólica. A mudança de nome não é só burocrática: ela reflete a descoberta de que essa condição está ligada, na maioria das vezes, a questões metabólicas como resistência à insulina, obesidade e diabetes, e não ao consumo de álcool.
No Brasil, estudos e coortes como o ELSA Brasil apontam que a esteatose hepática está presente em algo entre 20% e 35% da população adulta, dependendo do método usado no diagnóstico. É, na prática, uma das doenças crônicas mais frequentes do país, ao lado da hipertensão e do diabetes.
Quem tem mais risco de desenvolver gordura no fígado
A esteatose hepática costuma acompanhar outras condições metabólicas. Têm mais risco:
- Pessoas com sobrepeso ou obesidade, principalmente com gordura concentrada na região do abdome
- Pessoas com diabetes tipo 2 ou resistência à insulina
- Pessoas com colesterol ou triglicerídeos elevados
- Pessoas sedentárias
- Homens, especialmente antes dos 50 anos (depois da menopausa, o risco nas mulheres se aproxima do risco masculino, porque o estrogênio deixa de proteger o fígado)
- Pessoas com histórico familiar de diabetes ou doença hepática
- Crianças e adolescentes com obesidade, um grupo que vem crescendo nos últimos anos
Ter mais de um desses fatores ao mesmo tempo, principalmente obesidade associada a diabetes, aumenta bastante a chance de a esteatose evoluir para formas mais graves.
Fatores de risco e como a doença se desenvolve
O fígado é o órgão responsável por processar boa parte do que comemos, incluindo açúcares e gorduras. Quando existe excesso de calorias, resistência à insulina ou sedentarismo, o fígado passa a armazenar gordura em vez de processá la normalmente. Com o tempo, esse acúmulo pode gerar inflamação (a chamada MASH, ou esteato-hepatite) e, em alguns casos, cicatrizes no tecido do fígado, conhecidas como fibrose.
Os principais fatores que favorecem esse processo são obesidade, diabetes tipo 2, colesterol e triglicerídeos altos, síndrome metabólica, sedentarismo e uma alimentação rica em açúcar e ultraprocessados. O consumo excessivo de álcool também causa acúmulo de gordura no fígado, mas é tratado como uma categoria separada da MASLD.
Os sintomas mais comuns
A grande armadilha da esteatose hepática é que, na fase inicial, ela quase nunca dá sintomas. É por isso que a maioria dos casos, como o de Marcos, é descoberta por acaso em exames de rotina.
Quando existem sintomas, costumam ser bem inespecíficos:
- Cansaço sem explicação
- Sensação de peso ou desconforto leve no lado direito superior do abdome, onde fica o fígado
- Sensação de estufamento
Em fases mais avançadas, quando já existe cirrose, podem aparecer sinais mais claros, como pele e olhos amarelados, inchaço nas pernas e no abdome, coceira no corpo e facilidade para ter hematomas. Chegar a esse ponto, porém, não é o caminho da maioria das pessoas, principalmente quando o diagnóstico é feito cedo.
Alimentos que favorecem o acúmulo de gordura no fígado
Alguns padrões alimentares pioram diretamente o acúmulo de gordura no fígado, principalmente pelo excesso de açúcar de rápida absorção e de gorduras de baixa qualidade:
- Bebidas açucaradas, como refrigerantes e sucos industrializados, ricos em frutose
- Doces, sobremesas e produtos com muito açúcar adicionado
- Alimentos ultraprocessados em geral, como salgadinhos, biscoitos recheados e fast food
- Frituras e alimentos ricos em gordura trans
- Pães, massas e arroz muito refinados em excesso, sem equilíbrio com fibras
- Excesso de carnes processadas, como embutidos
- Álcool em quantidade excessiva
Alimentos que ajudam a proteger o fígado
O padrão alimentar com mais evidência de benefício para o fígado é parecido com a dieta mediterrânea, rica em vegetais e gorduras de boa qualidade:
- Verduras, legumes e frutas in natura (a fruta inteira, não o suco)
- Grãos integrais e leguminosas, como feijão, lentilha e grão de bico, por causa da fibra
- Azeite de oliva como principal fonte de gordura
- Peixes ricos em ômega 3, como sardinha, salmão e atum
- Oleaginosas, como castanhas e nozes, com moderação
- Café, que em diversos estudos aparece associado a um efeito protetor para o fígado
- Proteínas magras, como frango, ovos e peixe, em porções equilibradas
Mais importante do que eliminar um alimento isolado é o padrão geral da alimentação ao longo do tempo, junto com o controle do peso corporal.
Canetas emagrecedoras (GLP-1) têm relação com a gordura no fígado?
Sim, e essa é uma novidade recente e relevante. Os medicamentos da classe dos agonistas de GLP-1, populares pelo uso na perda de peso e no controle do diabetes, também têm mostrado resultado direto sobre o fígado.
Em dezembro de 2025, a Anvisa aprovou a semaglutida (o princípio ativo de Ozempic e Wegovy) especificamente para o tratamento da esteato-hepatite (MASH), a forma inflamada e mais avançada da esteatose hepática. A aprovação se baseou no estudo ESSENCE, que acompanhou pacientes com MASH e fibrose por 72 semanas: entre os que usaram semaglutida, 62,9% tiveram resolução da inflamação do fígado, contra 34,1% no grupo que usou placebo, e também houve mais melhora da fibrose no grupo tratado. Outros medicamentos da mesma família, como a tirzepatida, vêm mostrando resultados semelhantes em estudos recentes.
É importante deixar claro que essas medicações são prescrições médicas, indicadas para casos específicos de MASH com fibrose, e não um recurso de uso livre ou estético. A perda de peso corporal em torno de 7% a 10%, alcançada com alimentação e atividade física, continua sendo a base do tratamento, com ou sem o uso de medicação associada.
Quais são as consequências de não tratar
A boa notícia é que, na fase de esteatose simples, o quadro costuma ser reversível com mudança de hábitos. O problema é quando ele evolui sem ser percebido. A progressão pode seguir este caminho: esteatose simples, depois esteato-hepatite (MASH), com inflamação, depois fibrose, e em uma minoria dos casos, cirrose. A cirrose avançada pode, em alguns casos, evoluir para câncer de fígado.
Além disso, hoje se sabe que a esteatose hepática funciona como um sinal de alerta para o coração: pessoas com MASLD têm risco cardiovascular mais alto, incluindo infarto e AVC, provavelmente porque a doença compartilha as mesmas raízes metabólicas.
Como é feito o tratamento
O tratamento começa sempre pela base: perda de peso gradual (em torno de 7% a 10% do peso corporal já traz benefício relevante), atividade física regular (a recomendação geral é de 150 a 300 minutos por semana), controle do diabetes e do colesterol, e ajuste da alimentação no padrão descrito acima.
Quando existe indicação médica, principalmente em casos de MASH com fibrose, o médico pode associar medicações, como os agonistas de GLP-1 já aprovados para esse fim, ou outras classes indicadas conforme o perfil de cada paciente. A escolha do tratamento deve ser sempre individualizada, feita em consulta, com base em exames de imagem e, quando necessário, avaliação do grau de fibrose.
Checkup: quando procurar um médico
Como a esteatose costuma ser silenciosa, o caminho mais seguro é a prevenção pelo exame de rotina, principalmente para quem tem sobrepeso, diabetes, colesterol alterado ou histórico familiar dessas condições. Vale a pena conversar com o médico sobre exames de sangue com as enzimas do fígado, ultrassom de abdome e, quando indicado, elastografia hepática (o exame que avalia o grau de fibrose).
Descobrir a gordura no fígado cedo, como aconteceu com Marcos, é justamente o que permite reverter o quadro só com mudança de hábito, antes que ele avance para fases mais difíceis de tratar.
Este conteúdo tem caráter informativo e educativo, não substitui consulta médica. Cada caso deve ser avaliado individualmente por um profissional de saúde.
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