Maria, 48 anos, começou a notar que precisava beber água com muito mais frequência para conseguir engolir comida seca, como bolacha ou pão. Os olhos também ardiam ao longo do dia, como se tivesse areia dentro deles. No início, ela atribuiu tudo ao estresse do trabalho e ao ar-condicionado do escritório. Meses depois, veio o cansaço constante e uma dor leve nas articulações das mãos. Foi só quando procurou um oftalmologista pela secura ocular persistente que o encaminhamento para um reumatologista trouxe o diagnóstico: Síndrome de Sjögren.
"Os dados e o caso clínico citados neste artigo são fictícios e têm fim meramente ilustrativo, servindo para facilitar a compreensão do tema abordado."
O que é a Síndrome de Sjögren
A Síndrome de Sjögren é uma doença autoimune crônica. Isso significa que o sistema de defesa do corpo, que deveria proteger contra vírus e bactérias, passa a atacar por engano as próprias glândulas exócrinas, principalmente as que produzem lágrima e saliva. O resultado mais característico é a secura persistente dos olhos e da boca, mas a doença pode ir além disso e afetar outras partes do corpo.
Ela pode aparecer sozinha, chamada de Síndrome de Sjögren primária, ou associada a outra doença autoimune já existente, como lúpus ou artrite reumatoide, sendo chamada nesse caso de secundária. Mais recentemente, especialistas e sociedades internacionais têm passado a usar o termo "doença de Sjögren" em vez de "síndrome", reconhecendo que ela tem identidade própria e não é apenas um conjunto de sintomas de outra condição.
Todas as manifestações da doença
A doença costuma ser lembrada pela boca seca e pelos olhos secos, mas suas manifestações são bem mais amplas. Elas podem ser organizadas por região do corpo:
- Manifestações oculares: sensação de areia ou corpo estranho nos olhos, ardência, vermelhidão, sensibilidade à luz e, em casos mais avançados, lesões na córnea.
- Manifestações orais: boca seca persistente, dificuldade para engolir alimentos secos, necessidade de beber água durante a noite, cáries frequentes, aftas, rachaduras nos cantos da boca e aumento do volume das glândulas salivares (parótidas).
- Manifestações cutâneas: pele seca, coceira, e em alguns casos manchas roxas por inflamação de pequenos vasos (vasculite cutânea).
- Manifestações articulares e musculares: dor nas articulações, rigidez, inchaço leve e, mais raramente, inflamação muscular.
- Manifestações respiratórias: secura do nariz e da garganta, tosse seca e, em casos mais graves, comprometimento dos pulmões.
- Manifestações digestivas: azia, dificuldade de digestão e, ocasionalmente, inflamação do pâncreas.
- Manifestações ginecológicas: secura vaginal, que pode causar desconforto e dor nas relações sexuais.
- Manifestações neurológicas: formigamento, dormência ou fraqueza, quando há envolvimento de nervos periféricos.
- Manifestações vasculares: fenômeno de Raynaud, em que os dedos ficam pálidos, dormentes ou arroxeados diante do frio ou do estresse.
- Manifestações renais: em casos menos comuns, inflamação que pode alterar o funcionamento dos rins.
- Fadiga: um dos sintomas mais relatados e um dos que mais impactam a rotina, mesmo sem uma causa isolada clara.
Em uma pequena parcela dos pacientes, a doença também está associada a um risco aumentado de linfoma, o que reforça a importância do acompanhamento contínuo.
Como a pessoa se sente no dia a dia
Viver com a Síndrome de Sjögren costuma envolver um desconforto constante, mais do que uma dor aguda. É a sensação de olho irritado o dia inteiro, a boca seca que atrapalha falar ou comer em público, o cansaço que não melhora com uma noite de sono e a dor articular que vem e volta. Esse conjunto de sintomas, mesmo quando isolados parecem pequenos, tende a se acumular e afetar o sono, o humor, a alimentação e a vida social. Por isso, o impacto na qualidade de vida costuma ser maior do que se imagina à primeira vista.
Fatores de risco
Alguns fatores aumentam a probabilidade de desenvolver a doença:
- Sexo: é muito mais comum em mulheres do que em homens.
- Idade: costuma surgir entre os 40 e 60 anos, embora possa aparecer em outras faixas etárias.
- Histórico familiar: ter parentes com doenças autoimunes aumenta o risco.
- Presença de outra doença autoimune: como lúpus, artrite reumatoide ou tireoidite autoimune.
- Fatores genéticos e hormonais: ainda em estudo, mas já reconhecidos como parte do quadro.
O que piora os sintomas
Determinadas situações tendem a intensificar a secura e o desconforto:
- Ambientes secos, com ar-condicionado ou vento forte.
- Exposição à fumaça de cigarro.
- Consumo de cafeína e álcool, que desidratam.
- Uso de certos medicamentos, como antialérgicos e alguns antidepressivos, que reduzem ainda mais a produção de saliva e lágrima.
- Baixa ingestão de água ao longo do dia.
- Períodos de maior estresse físico ou emocional.
Como é feito o diagnóstico
O diagnóstico exige uma avaliação cuidadosa, já que os sintomas podem ser confundidos com outras causas de olho seco e boca seca. O caminho costuma envolver:
- Histórico clínico e exame físico detalhado, feito pelo reumatologista.
- Avaliação oftalmológica, com testes como o teste de Schirmer, que mede a produção de lágrima.
- Avaliação da saliva, medindo o fluxo salivar ou por exames de imagem das glândulas.
- Exames de sangue, buscando autoanticorpos característicos, como anti-Ro (SSA) e anti-La (SSB), além do fator reumatoide e do FAN.
- Biópsia de glândula salivar labial, em alguns casos, para confirmar a inflamação típica da doença.
Não existe um único exame que feche o diagnóstico sozinho: ele é construído juntando sintomas, exames físicos e resultados laboratoriais.
Como é feito o tratamento
Ainda não existe cura definitiva para a Síndrome de Sjögren, mas o tratamento consegue controlar bem os sintomas e prevenir complicações. Ele é sempre individualizado, de acordo com quais manifestações estão presentes:
- Para a secura ocular: colírios lubrificantes e, em casos mais intensos, medicações específicas.
- Para a secura oral: substitutos de saliva, estímulo à produção salivar com medicamentos e cuidados odontológicos reforçados.
- Para dor articular e fadiga: hidroxicloroquina costuma ser a primeira escolha, podendo ser associada a anti-inflamatórios.
- Para manifestações mais graves, como inflamação de pulmões, rins ou vasos, podem ser usados corticoides e imunossupressores, sempre sob orientação de especialista.
- Medidas do dia a dia, como manter boa hidratação, umidificar ambientes e evitar fatores que pioram os sintomas, fazem parte do cuidado contínuo.
Como o acompanhamento médico pode ajudar
Por ser uma doença crônica e com manifestações em diferentes órgãos, o acompanhamento médico contínuo faz toda a diferença. Um médico que conhece a evolução do paciente ao longo do tempo consegue ajustar o tratamento conforme os sintomas mudam, identificar precocemente sinais de complicações mais sérias, orientar sobre quando encaminhar para outros especialistas, como oftalmologista ou dentista, e oferecer suporte para lidar com o impacto da fadiga e da dor crônica na rotina. Esse olhar continuado, e não apenas pontual, é o que permite que a pessoa mantenha qualidade de vida mesmo convivendo com a doença.
Este conteúdo tem caráter informativo e educacional, não substituindo consulta, diagnóstico ou tratamento com médico ou profissional de saúde qualificado. Em caso de sintomas persistentes de secura ocular, oral ou outros sinais descritos aqui, procure avaliação médica.
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