Resposta rápida
A mielite transversa é uma inflamação rara da medula espinhal, o "cabo" de nervos que passa dentro da coluna e leva as mensagens entre o cérebro e o corpo. Quando essa inflamação atinge a medula, as mensagens deixam de passar direito. O resultado costuma ser fraqueza, formigamento ou dormência nas pernas, dor nas costas, sensação de faixa apertando o tronco e alterações na bexiga e no intestino, em questão de horas ou dias. Existe tratamento, e a chance de recuperação é maior quando o atendimento é rápido. Em média, cerca de um terço das pessoas se recupera bem, um terço fica com sequelas moderadas e um terço com sequelas importantes.
Caso clínico ilustrativo
Mariana, 34 anos, tinha acabado de se recuperar de uma gripe forte. Em uma manhã, sentiu uma dor nas costas e uma sensação estranha, como se uma faixa apertasse a barriga. À tarde, as pernas ficaram formigando e pesadas. À noite, percebeu que quase não conseguia subir a escada e que sentia dificuldade para urinar. No pronto-socorro, o médico pediu uma ressonância magnética da coluna, que mostrou inflamação em um trecho da medula. Ela foi internada, recebeu tratamento na veia e foi encaminhada para investigação com neurologista e para reabilitação.
Os dados e o caso clínico citados neste artigo são fictícios e têm fim meramente ilustrativo, servindo para facilitar a compreensão do tema abordado.
O que é a mielite transversa?
A palavra "mielite" significa inflamação da medula. "Transversa" indica que a inflamação atinge a medula de lado a lado, em um determinado nível, como se uma faixa cruzasse o "cabo". Por isso, os sintomas costumam aparecer dos dois lados do corpo e abaixo da região inflamada.
Uma imagem ajuda: a medula funciona como a fiação elétrica de uma casa. Se um trecho da fiação inflama e perde a "capa protetora" (a mielina), a corrente passa mal, e tudo o que está depois daquele ponto sofre.
É uma doença do sistema imunológico em muitos casos: as defesas do corpo, que deveriam proteger, passam a agredir a própria medula. Pode aparecer como um episódio único ou fazer parte de uma doença que volta ao longo da vida.
Quantas pessoas têm mielite transversa?
É uma doença rara, e os números variam conforme o país e o método do estudo:
- Estudos populacionais mais antigos estimaram de 1 a 8 casos novos por milhão de pessoas por ano.
- Um grande estudo em Estocolmo (Suécia) encontrou cerca de 25 casos de mielite de qualquer causa por milhão de pessoas por ano, dos quais cerca de 8 eram de causa não identificada.
- Em um estudo nos Estados Unidos (condado de Olmsted), a incidência da forma sem causa identificada foi de 8,6 por milhão por ano, e a prevalência (pessoas que convivem com a doença) foi de 7,9 por 100 mil habitantes.
- Nos Estados Unidos, estima-se cerca de 1.400 novos casos por ano.
E no Brasil? Não há um registro nacional específico. Uma revisão brasileira cita a mesma faixa mundial, de 1 a 4 casos novos por milhão de habitantes. Como exercício de cálculo (e não como dado oficial), aplicando a faixa de 1 a 8 por milhão a uma população de cerca de 213 milhões de brasileiros, seriam algo entre 200 e 1.700 novos casos por ano. Os números reais podem ser maiores, porque muitos casos são diagnosticados tarde ou classificados de outra forma.
Ela pode surgir em qualquer idade, com picos descritos na adolescência e entre os 30 e 40 anos, e afeta homens e mulheres.
Quais são os principais sintomas?
Os sintomas aparecem de forma rápida, em geral entre algumas horas e poucas semanas:
- Dor nas costas ou no pescoço, às vezes forte
- Sensação de faixa ou cinto apertado em volta do peito ou da barriga
- Formigamento, dormência ou "queimação" nas pernas, que pode subir pelo tronco
- Fraqueza nas pernas, que pode evoluir para dificuldade de andar ou paralisia
- Alterações da bexiga: urgência, escapes ou dificuldade para urinar
- Alterações do intestino: prisão de ventre ou perda de controle
- Alterações da sensibilidade: perceber diferente o frio, o calor e o toque
- Disfunção sexual
Os sintomas costumam começar de repente, com dor nas costas e a sensação de faixa apertada no tronco. A gravidade depende do local e do tamanho da inflamação.
Quando procurar o pronto-socorro
Fraqueza nas pernas de início rápido, formigamento que sobe, dificuldade para urinar ou perda de controle da bexiga ou do intestino são sinais de alerta. Quanto antes a avaliação, melhor a chance de recuperação.
Quais são as causas?
Em muitos casos, a causa não é encontrada. Quando é, entram principalmente:
Doenças autoimunes do sistema nervoso
- Esclerose múltipla
- Neuromielite óptica (NMOSD), ligada ao anticorpo anti-aquaporina-4
- MOGAD, doença associada ao anticorpo anti-MOG
Outras doenças autoimunes e inflamatórias
- Lúpus
- Síndrome de Sjögren
- Sarcoidose
Infecções
- Virais, como herpes, varicela-zóster e outros vírus, e também a COVID-19
- Bacterianas, como sífilis, doença de Lyme e tuberculose
- Parasitárias: no Brasil, a frequência das causas varia conforme a região, com mielite por esquistossomose descrita no Norte e por doenças autoimunes no Sudeste.
Outros gatilhos
- Pós-infecciosa: a inflamação aparece dias ou semanas depois de uma infecção, mesmo leve
- Pós-vacinal: pode surgir depois de uma vacinação, mas é um evento raro
- Medicamentos e drogas, em casos específicos
Quando não se acha a causa
Chama-se mielite transversa idiopática. Com a descoberta dos anticorpos anti-aquaporina-4 e anti-MOG, metade das mielites longas antes chamadas de "idiopáticas" passou a ter causa identificada.
O que faz o médico pensar nessa doença?
Alguns sinais chamam a atenção do neurologista:
- Sintomas dos dois lados do corpo, com um "nível" bem definido, abaixo do qual a sensibilidade muda
- Início rápido (horas a dias), sem trauma
- Dor nas costas seguida de fraqueza e alteração urinária
- Histórico recente de infecção ou vacinação
- Outros sinais associados, como perda de visão com dor ao mexer o olho (pode sugerir neuromielite óptica ou MOGAD) ou crises neurológicas anteriores (pode sugerir esclerose múltipla)
Quais são os diagnósticos diferenciais?
Muitas doenças imitam a mielite transversa, e algumas são urgências que precisam de outro tratamento. As principais:
- Compressão da medula: hérnia de disco grave, tumor, metástase, abscesso, fratura
- AVC da medula (infarto medular), por falta de sangue
- Trauma na coluna
- Síndrome de Guillain-Barré, que afeta os nervos e não a medula
- Deficiência de vitamina B12 e de cobre
- Malformações dos vasos da medula
- Tumores dentro da medula
- Mielopatia associada ao HTLV-1 (paraparesia espástica tropical), de evolução mais lenta
- Outras infecções, como a poliomielite em quadros de paralisia flácida aguda
É preciso diferenciar a mielite transversa de doenças como Guillain-Barré, compressão da medula e bloqueio do suprimento de sangue.
Como é feito o diagnóstico?
Não existe um único exame. O diagnóstico combina história, exame neurológico e exames de apoio:
- Consulta e exame neurológico, com avaliação de força, sensibilidade, reflexos e do "nível" da alteração.
- Ressonância magnética da coluna (e geralmente do cérebro), que mostra a inflamação e afasta compressões. Ela costuma mostrar inchaço da medula por inflamação.
- Punção lombar (coleta do líquido da medula): pode mostrar aumento de células de defesa e de proteínas. Também permite buscar bandas oligoclonais, que sugerem esclerose múltipla.
- Exames de sangue, incluindo os anticorpos anti-aquaporina-4 e anti-MOG, e a pesquisa de infecções e de doenças autoimunes.
Os critérios clássicos de 2002 (Transverse Myelitis Consortium Working Group) pedem, em resumo, sintomas da medula, sinais de inflamação nos exames e exclusão de outras causas.
Qual é o tratamento?
O tratamento começa o mais cedo possível e tem dois objetivos: apagar a inflamação e tratar a causa.
Na fase aguda
- Corticoide em dose alta na veia, por alguns dias, geralmente a primeira escolha
- Plasmaférese (troca de plasma), indicada principalmente quando não há resposta ao corticoide: o plasma é retirado e substituído para remover os anticorpos que agridem a medula.
- Imunoglobulina na veia, em alguns casos
- Tratamento da infecção ou da doença de base, quando identificada
Para evitar novos episódios
Quando a causa é uma doença que volta, como neuromielite óptica, MOGAD ou esclerose múltipla, o neurologista indica medicamentos de uso contínuo para prevenir novas crises. Quem tem o anticorpo positivo tem maior risco de ter vários episódios.
Reabilitação
- Fisioterapia para força, equilíbrio e marcha
- Terapia ocupacional para as atividades do dia a dia
- Cuidado da bexiga e do intestino
- Apoio psicológico, porque ansiedade e depressão são comuns
Tem como reverter? Tem cura?
A resposta honesta é: depende. A inflamação pode ser controlada, e muita gente recupera boa parte das funções, mas não dá para prometer para todos. Em geral, cerca de um terço recupera-se, um terço fica com fraqueza e problemas urinários e um terço se recupera pouco.
- A recuperação costuma começar entre a 2ª e a 12ª semana e pode continuar por até 2 anos.
- Tendem a ter pior evolução quem tem início muito rápido e grave, dor intensa e anticorpo positivo.
- Tendem a ter melhor evolução quem tem sintomas mais leves, início mais lento e tratamento precoce.
- Em um estudo da Nova Zelândia, a metade dos pacientes com lesões no cérebro à ressonância evoluiu para esclerose múltipla, enquanto nenhum dos casos sem causa identificada evoluiu.
Perguntas frequentes
Mielite transversa é contagiosa?
Não. A doença em si não passa de pessoa para pessoa. Uma infecção pode ser o gatilho, mas a inflamação da medula é uma reação do próprio organismo.
Mielite transversa é a mesma coisa que esclerose múltipla?
Não. A mielite transversa pode ser a primeira manifestação da esclerose múltipla em alguns casos, mas muitas pessoas têm um episódio único e nunca desenvolvem a doença. A ressonância do cérebro e o líquor ajudam a estimar esse risco.
A vacina causa mielite transversa?
É um evento muito raro e, quando descrito, geralmente em relatos isolados. Os benefícios da vacinação superam amplamente esse risco. Qualquer dúvida deve ser conversada com o médico.
Posso voltar a andar depois de uma mielite transversa?
Muitas pessoas voltam a andar, algumas com apoio de bengala ou órteses. A chance depende da gravidade, da rapidez do tratamento e da causa. A reabilitação faz diferença.
A doença pode voltar?
Pode, principalmente quando está ligada a esclerose múltipla, neuromielite óptica ou MOGAD. Quando não se encontra causa, o risco de recaída costuma ser menor, e o seguimento com neurologista define o acompanhamento.
Qual médico procurar?
Na urgência, o pronto-socorro. Depois, o neurologista, que conduz a investigação e o tratamento, junto com a equipe de reabilitação.
Conclusão
A mielite transversa é rara, mas é uma urgência neurológica. Reconhecer cedo o conjunto de dor nas costas, faixa no tronco, formigamento e fraqueza nas pernas, e principalmente alterações urinárias, pode mudar o desfecho. Hoje existem exames que identificam a causa e tratamentos que reduzem a inflamação e previnem novas crises. Se você ou alguém próximo apresentar esses sinais de forma rápida, não espere melhorar sozinho: procure atendimento médico imediatamente.
Este conteúdo tem finalidade educativa e não substitui a avaliação, o diagnóstico ou a orientação de um médico. Cada caso deve ser analisado individualmente por um profissional de saúde.
Fontes
- Transverse Myelitis Consortium Working Group. Proposed diagnostic criteria and nosology of acute transverse myelitis. Neurology. 2002;59(4):499-505.
- Scott TF, et al. Evidence-based guideline: clinical evaluation and treatment of transverse myelitis. Neurology. 2011.
- Frohman EM, Wingerchuk DM. Transverse myelitis. N Engl J Med. 2010.
- Aquaporin-4 and MOG autoantibody discovery in idiopathic transverse myelitis epidemiology. Neurology. 2019;93(4):e414-e420.
- Zalewski NL, Flanagan EP, Keegan BM. Evaluation of idiopathic transverse myelitis revealing specific myelopathy diagnoses. Neurology. 2018;90(2):e96-e102.
- Young J, et al. Clinically isolated acute transverse myelitis: prognostic features and incidence. Mult Scler. 2009;15(11):1295-1302.
- Modern look at transverse myelitis and inflammatory myelopathy: epidemiology of the national Veterans Health Administration population. Neurol Neuroimmunol Neuroinflamm. 2021;8(6):e1071.
- Estudo populacional de mielite em Estocolmo, Suécia, 2008 a 2018 (PMC12424075).
- Ramos VM, et al. Estudo revisional sobre a mielite transversa aguda no Brasil. Revista INTESA.
- Mayo Clinic. Transverse myelitis: diagnosis and treatment.
- Manual MSD (versão para o público geral). Mielite transversa aguda.
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