Resposta rápida
Aquela tontura que aparece junto com a dor de cabeça pode ter uma explicação que muita gente não conhece: a enxaqueca vestibular. A enxaqueca não é só uma dor de cabeça forte, ela é uma doença do sistema nervoso que pode vir acompanhada de aura (alterações visuais ou sensoriais antes da dor) e, em alguns casos, de tontura persistente. Quando as crises se tornam muito frequentes, a toxina botulínica é uma das opções de tratamento mais usadas e estudadas, aplicada a cada três meses, com bons resultados e poucos efeitos colaterais. A escolha do melhor tratamento, seja a toxina, seja um remédio mais novo como o atogepanto, depende do caso de cada paciente.
Caso clínico ilustrativo
Marina, 34 anos, procurou um neurologista porque tinha dor de cabeça latejante, de um lado só, quase todos os dias, há mais de três meses. Junto com a dor, sentia enjoo e muito incômodo com luz e barulho. Além disso, tinha episódios de tontura, como se tudo estivesse girando, que sempre pioravam junto com as crises, mesmo sem nenhum problema no ouvido. Ela já havia tentado três remédios diferentes para prevenir as crises, sem sucesso, e por anos achou que a tontura fosse um problema separado, sem ligação com a enxaqueca. Como o caso dela era de enxaqueca frequente com tontura associada, e os remédios não haviam funcionado, foi indicado o tratamento com toxina botulínica. Depois da segunda aplicação, Marina notou uma melhora grande, tanto na frequência das dores quanto na tontura.
Os dados e o caso clínico citados neste artigo são fictícios e têm fim meramente ilustrativo, servindo para facilitar a compreensão do tema abordado.
O que é a enxaqueca?
A enxaqueca, também chamada de migrânea, é uma doença do sistema nervoso que causa crises de dor de cabeça, geralmente latejante e de um lado só, acompanhada de enjoo, vontade de vomitar e incômodo com luz e som. Não é "só uma dor de cabeça forte": é uma condição que envolve mudanças reais no funcionamento da vida das pessoas e ocorre também no cérebro e é uma das principais causas de afastamento do trabalho e da vida social no mundo, pois impossibilita de sair do próprio quarto.
Enxaqueca sem aura
É o tipo mais comum de enxaqueca. Para o médico confirmar esse diagnóstico, a pessoa costuma apresentar:
- Pelo menos 5 crises de dor ao longo da vida com essas características
- Dor que dura de 4 a 72 horas, se não for tratada
- Pelo menos duas destas características: dor de um lado só, dor latejante, dor moderada a forte, ou piora ao se movimentar
- Durante a crise, enjoo e/ou vômito, ou incômodo forte com luz e som
- E, claro, que não exista outra doença explicando esses sintomas
Enxaqueca com aura
Acontece em cerca de 1 em cada 4 pessoas com enxaqueca. A aura é um conjunto de sintomas neurológicos temporários, que passam completamente sozinhos, e costumam aparecer pouco antes ou junto com a dor de cabeça. Os sinais mais comuns são:
- Alterações na visão (pontos de luz, linhas em zigue-zague, manchas ou até perda temporária de parte da visão)
- Formigamento ou dormência em uma parte do corpo
- Dificuldade para falar ou encontrar palavras
- Mais raramente, fraqueza em um lado do corpo
Esses sintomas costumam durar entre 5 e 60 minutos e depois passam por conta própria, sendo seguidos pela dor de cabeça.
Enxaqueca crônica
Quando a dor de cabeça aparece em 15 dias ou mais por mês, por mais de três meses seguidos, e em pelo menos 8 desses dias a dor tem as características de enxaqueca, o diagnóstico passa a ser de enxaqueca crônica. É justamente para esse grupo de pacientes que a toxina botulínica tem indicação aprovada.
Enxaqueca vestibular: quando a tontura entra em cena
A enxaqueca vestibular é quando a pessoa tem, além da dor de cabeça, crises de tontura ou sensação de desequilíbrio, mesmo sem nenhum problema no ouvido. É uma causa comum de tontura que muitas vezes não é identificada, principalmente em quem já tem enxaqueca ou tem parentes com a doença. Muita gente passa anos investigando o ouvido, o labirinto ou até achando que é ansiedade, sem chegar à causa real, simplesmente porque a enxaqueca vestibular ainda é pouco lembrada como possibilidade.
Os remédios tradicionais para prevenir enxaqueca costumam funcionar menos bem quando a tontura está presente. Entre as opções de tratamento, a toxina botulínica e o topiramato (um remédio em comprimido) são os que mostraram melhores resultados tanto para a tontura quanto para a dor de cabeça, o que torna a toxina uma boa alternativa para quem já tentou outros remédios sem sucesso.
O que é a toxina usada: Toxina Botulínica Tipo A
A toxina botulínica é uma substância produzida por uma bactéria chamada Clostridium botulinum. Existem vários tipos dessa toxina, mas apenas dois são usados como remédio, o tipo A e o tipo B, sendo o tipo A o único aprovado para tratar enxaqueca.
Ela age bloqueando, de forma temporária, a liberação de substâncias nos nervos da região onde é aplicada. No caso da enxaqueca, além de relaxar a musculatura, a toxina também reduz a liberação de substâncias ligadas à dor, ajudando a "acalmar" os nervos que ficam hiperativos durante as crises.
As marcas de toxina botulínica são todas iguais?
Não. Apesar de todas vierem da mesma substância de base, as diferentes marcas de toxina botulínica não são iguais entre si nem podem ser trocadas livremente, pois têm diferenças de fabricação e de dose. O tratamento para enxaqueca segue um protocolo específico, testado e aprovado cientificamente, que usa uma marca determinada, aplicada em cerca de 30 pontos fixos na cabeça, testa, têmporas, nuca e ombros, repetido a cada 12 semanas (três meses).
Qual a diferença entre os tratamentos para prevenir enxaqueca?
Hoje existem várias formas de tratar a enxaqueca para evitar que as crises apareçam, e cada uma funciona de um jeito diferente:
- Remédios em comprimido mais antigos (para pressão, depressão ou convulsão, usados também para enxaqueca): tomados todos os dias, agem de forma mais geral no corpo e costumam ter mais efeitos colaterais
- Toxina botulínica: aplicada em consultório a cada 3 meses, indicada para quem tem enxaqueca crônica, com poucos efeitos colaterais e sem precisar lembrar de tomar remédio todo dia
- Anticorpos (remédios injetáveis mais novos): aplicados uma vez por mês ou a cada três meses, agem de forma bem específica bloqueando uma substância chamada CGRP (tem em comprimidos orais e injetáveis), que tem papel importante nas crises
- Comprimidos mais novos, como o atogepanto: tomados todos os dias, também agem bloqueando o CGRP, mas em forma de pílula tem uma matéria aqui no site falando apenas dele.
A principal diferença entre a toxina e os remédios mais novos é o alvo de ação: a toxina age relaxando os nervos e reduzindo substâncias ligadas à dor na região onde é aplicada, enquanto os remédios mais novos bloqueiam diretamente o CGRP, uma substância que tem participação direta no início das crises de enxaqueca.
Como escolher o tratamento certo
Não existe um tratamento único e melhor para todo mundo. A escolha depende de vários fatores:
- Quantos dias de dor por mês a pessoa tem: a toxina é indicada principalmente para quem tem enxaqueca crônica (15 dias ou mais de dor por mês)
- Se outros remédios já foram tentados sem sucesso: quem já tentou dois ou mais remédios sem melhora costuma ser candidato à toxina ou aos remédios mais novos
- Se há tontura junto com a enxaqueca: nesses casos, a toxina costuma ter mais respaldo científico que outras opções
- Outras doenças que a pessoa tenha: problemas de coração, depressão ou uso de outros remédios podem impedir certos tratamentos e favorecer a toxina ou os remédios mais novos
- O estilo de vida da pessoa: quem tem dificuldade de lembrar de tomar remédio todo dia costuma se adaptar melhor a tratamentos aplicados de tempos em tempos, como a toxina
- Uso frequente de analgésicos: quando a pessoa toma remédio para dor com muita frequência, é ainda mais importante começar um tratamento preventivo eficaz
Para a escolha, ela não é feita sozinha, faça sempre acompanhada de um médico, pois ele é um profissional habilitado para tais condutas e sabe como avaliar da melhor forma.
Efeitos colaterais e quanto tempo dura o efeito
Os efeitos colaterais mais comuns da toxina botulínica para enxaqueca costumam ser leves e passageiros:
- Dor ou desconforto no local da aplicação
- Sensação de fraqueza na musculatura tratada
- Queda leve da pálpebra, em alguns casos
- Sensação de rigidez no pescoço
- Dor de cabeça nas primeiras horas depois da aplicação
A melhora costuma começar a ser sentida entre a segunda e a terceira semana depois da aplicação, mas o efeito mais completo geralmente aparece depois da segunda ou terceira sessão. O efeito dura em média 12 semanas (três meses), que é justamente o intervalo recomendado entre uma aplicação e outra. Algumas pessoas notam que o efeito enfraquece um pouco nas últimas semanas antes da próxima aplicação, o que pode ser ajustado junto com o médico.
Toxina botulínica x tratamentos mais novos (atogepanto e outros)
Comparando com os remédios mais novos que agem no CGRP, a toxina botulínica tem resultados parecidos na hora de reduzir os dias de dor, mas existem diferenças importantes:
- Como é usado: a toxina é aplicada em consultório a cada 3 meses; o atogepanto é um comprimido tomado todos os dias; os remédios injetáveis mais novos costumam ser mensais ou trimestrais, e alguns o próprio paciente pode aplicar em casa
- Tempo para começar a fazer efeito: os comprimidos como o atogepanto costumam agir mais rápido, em poucas semanas, enquanto o efeito completo da toxina aparece aos poucos, ao longo de algumas sessões
- Efeitos colaterais: o atogepanto costuma causar mais enjoo e prisão de ventre; a toxina tende a causar efeitos mais localizados e leves; alguns estudos mostram que os remédios injetáveis mais novos têm um pouco menos de efeitos colaterais sérios do que a toxina
- É possível usar os dois juntos?: estudos recentes têm avaliado o uso da toxina combinada com os remédios mais novos em casos mais difíceis de controlar, e os resultados parecem seguros, mas ainda são necessárias mais pesquisas antes de virar uma recomendação padrão
Na prática, nenhum tratamento é melhor que o outro em todos os casos. A escolha entre a toxina, o atogepanto ou os remédios injetáveis deve ser feita junto com o neurologista, levando em conta a história de cada paciente e o que já foi tentado antes.
Perguntas Frequentes:
A toxina botulínica funciona para qualquer tipo de enxaqueca?
Não. Ela é indicada especificamente para quem tem enxaqueca crônica, ou seja, dor em 15 dias ou mais por mês. Para quem tem crises mais espaçadas, outros tratamentos costumam ser a primeira escolha.
A toxina botulínica muda a aparência do rosto?
Quando aplicada para tratar enxaqueca, a dose é distribuída em pontos específicos da cabeça, testa, têmporas e pescoço, com finalidade de tratamento, não estética. O objetivo não é mudar a aparência, embora algumas pessoas notem uma leve suavização das linhas de expressão na testa.
Quanto tempo até eu sentir os primeiros resultados?
A melhora costuma começar a aparecer entre a segunda e a terceira semana depois da aplicação, mas o resultado mais completo costuma vir depois da segunda ou terceira sessão de tratamento.
Depois de um tempo, dá pra parar o tratamento?
Em muitos casos, depois de algumas aplicações com boa resposta, é possível conversar com o médico sobre espaçar ou até parar o tratamento aos poucos. Isso varia de pessoa para pessoa, por isso o acompanhamento médico é sempre importante.
Conclusão
A enxaqueca, seja com aura, sem aura, ou com tontura associada, é uma doença que precisa de avaliação individual e de um diagnóstico bem feito para que o tratamento certo seja escolhido e não pode ser feito por indicação de alguém que você conhece ou porque viu internet. A toxina botulínica continua sendo uma ferramenta importante para quem tem enxaqueca crônica, inclusive nos casos com tontura, com boa eficácia e segurança. Com o surgimento de remédios mais novos, como o atogepanto e os injetáveis que agem no CGRP, o tratamento deixou de ser único e passou a ser cada vez mais personalizado, respeitando a história e as necessidades de cada paciente. Se você convive com dor de cabeça frequente ou tontura sem explicação, o primeiro passo é buscar uma avaliação especializada para entender a causa e conhecer as opções de tratamento para o seu caso.
Este conteúdo tem finalidade educativa e não substitui a avaliação, o diagnóstico ou a orientação de um médico. Cada caso deve ser analisado individualmente por um profissional de saúde.
Fontes
- International Headache Society. The International Classification of Headache Disorders, 3rd edition (ICHD-3).
- Sociedade Brasileira de Cefaleia.
- Estudos do Protocolo PREEMPT (Phase 3 REsearch Evaluating Migraine Prophylaxis Therapy).
- Arquivos de Neuro-Psiquiatria (Arq Neuropsiquiatr).
- Headache Medicine (Revista da Sociedade Brasileira de Cefaleia).
- Journal of Headache and Pain.
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